Canais e programadoras compartilham demandas e desafios no seminário NETLABTV


Abrindo a semana dedicada ao Laboratório dos vencedores do concurso NETLABTV, evento reuniu representantes dos canais e programadoras de TV por assinatura parceiros do projeto para debater cases e desafios no desenvolvimento de séries brasileiras.

 

essa2

 

O Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) recebeu no último dia 11 de novembro o Seminário NETLABTV, promovido pela NET e pelos principais canais e programadoras de TV por assinatura do  país.

A abertura do evento foi dividida entre André Sturm, diretor administrativo-financeiro do MIS-SP e presidente do Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (SIAESP), Fernando Magalhães, diretor de conteúdo da NET, e Minom Pinho, produtora executiva do NETLABTV e sócia-diretora da Casa Redonda. Os três ressaltaram a necessidade de projetos e programas voltados ao desenvolvimento de conteúdos para TV,  a importância do diálogo entre criação e mercado de TV e os desafios trazidos pela nova lei de TV por assinatura às cadeias criativas e produtivas do audiovisual no Brasil, que resultaram na criação do NETLABTV.

A nova lei da TV paga no país gerou a necessidade por novas ideias e formatos para a televisão por assinatura e também apontou o desenvolvimento e aprimoramento de roteiros como investimento essencial ao fortalecimento do mercado criador e produtor.

Com dois painéis sobre desenvolvimento de séries brasileiras: um sobre não-ficção e outro sobre ficção, o seminário contou com a participação de profissionais das programadoras Fox, Discovery, A&E/History/Bio, Canal Sony, Viacom e Turner, parceiros e coempreendedores do Concurso e do evento.

 

Não Ficção

A primeira mesa sobre projetos de não ficção foi mediada por Fernando Dias, conselheiro da ABPITV (Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão), e composta por Krishna Mahon, produtora executiva do History Channel, Roberto Martha, diretor de produção da Viacom, Gabriela Varallo e Carolina Telles, supervisoras de produção do Discovery, e Elisa Chalfon, diretora de conteúdo da Fox.

Sem exceções, todos os palestrantes afirmaram que é fundamental conhecer muito bem os canais antes de enviar um projeto de série. “O melhor jeito de entender o que queremos na programação é assistir o canal e ver os tipos de programas que estamos veiculando. É preciso assistir e gostar de televisão”, afirmou Krishna Mahon.

A produtora-executiva do History, A&E e Biography Channel contou que, apesar do History Channel ser um canal muito masculino, ainda chegam muitos projetos femininos, que por mais que sejam bons, não serão aprovados pela falta de adequação ao estilo do canal. E enfatizou que o History não está mais procurando “documentários chatos e antigos de história”, que são os conteúdos da maioria dos projetos enviados, segundo Mahon. A produtora ainda revelou que ‘O Infiltrado’ é um ótimo exemplo de série que tem um formato divertido, um conteúdo profundo e funcionou muito bem no canal.

Gabriela e Maria Carolina, do Discovery, contaram que a marca já possui 12 canais no Brasil e é líder mundial de não ficção. “Os nossos programas possuem um tratamento criativo da realidade. Queremos viajar pela história através do olhar humano. O espectador tem que vivenciar a experiência, acompanhar a aventura enquanto ela acontece”, afirmaram. Para exemplificar esse tipo de programa, chamado de charater driven, elas exibiram o teaser de duas séries brasileiras bem sucedidas no canal: Águias da Cidade e Desafio em Dose Dupla.

Elisa Chalfon falou apenas sobre os canais de não ficção da Fox – FoxLife, Bem Simples e NatGeo – e revelou que os dois primeiros se unirão para formar o FoxLifestyle, com um perfil mais abrangente e coeso e o lema #curtaavida. Já o NatGeo tem um público masculino de 35 a 45 anos e busca unir conhecimento com entretenimento. “É o que chamamos de entretenimento factual e queremos personagens que contribuam com as histórias. Além disso, preferimos séries com temporadas longas”, revelou. Elisa aproveitou também para mostrar o teaser de “Os Incríveis”, nova série e novo formato do NatGeo.

Para Roberto Martha, da Viacom, costuma-se pensar que produzir um conteúdo para TV é muito fácil, mas essa atividade envolve uma cadeia complexa e é sempre difícil. Além disso, ele reforçou que as ideias têm que se adequar aos canais: “O projeto pode ter uma boa premissa, mas ainda assim não servir no meu canal, e existem limites para a adaptação de uma ideia”. Segundo ele, quanto mais customizado e alinhado o projeto estiver com o perfil do canal, maiores as chances dele ir ao ar. O diretor da Viacom também revelou ainda que estão fazendo muitas pesquisas para entender o público de seu mais novo canal, a MTV Brasil.

Martha também deu um exemplo de como a proposta deve ser bem elaborada para instigar o canal: “Se você me disser que quer fazer um reality para arrumar uma namorada para um senhor de 47 anos, eu não vou querer. Mas, se esse senhor for o Supla, as coisas mudam.” E em seguida mostrou o teaser do novo reality da MTV: “Papito in Love”.

Em relação ao envio de projetos, todos os palestrantes relataram que são itens obrigatórios: o descritivo da ideia, a sinopse, o cronograma, o orçamento, a apresentação da produtora e da equipe e um teaser, uma promo ou alguma demonstração audiovisual do projeto, quando possível. “O projeto tem que ter concisão e assertividade também, porque nós não temos tempo para ler 200 slides ou páginas”, acrescentou Elisa.

“Além disso, o canal precisa ter possibilidades de financiamento. As pessoas esquecem que os canais não são a única alternativa para isso. Existe a possibilidade de patrocínios, de dividir a conta, de fazer pacotes e até parcerias com outro canais”, completou Krishna.

 

Ficção

A segunda rodada de palestras teve como tema o desenvolvimento de séries de ficção e foi composta por Marcello Braga, diretor de conteúdo da Fox, Silvia Fu Elias, diretora de conteúdo nacional da Turner, e Alexandre David, supervisor de produção e desenvolvimento da Sony. Quem mediou o bate-papo foi Roberto Franco Moreira, diretor de comunicação da SIAESP.

Marcelo Braga abriu sua palestra expondo o perfil dos canais ficcionais da Fox – Fox e FX – ambos compostos por filmes e séries jovens, pois quase 50% dos espectadores têm até 24 anos e o segundo maior segmento é de até 34 anos. Estão interessados em histórias de sobrevivência com elementos sobrenaturais e misteriosos.

De acordo com Braga, existem três maneiras distintas para o surgimento de novos projetos: a produtora pode trazer a ideia para a Fox, a Fox pode levar a ideia para a produtora ou o roteirista pode levar a ideia para a Fox, e o canal vai atrás de uma produtora. Essa última alternativa é a mais difícil, segundo o diretor.

Ele ainda explicou que a Fox consegue avaliar cerca de 200 projetos por ano, que se interessa por 60 deles e que vão filtrando até escreverem o piloto de 25 deles para entender o verdadeiro potencial do projeto. Destes 25, apenas cinco viram séries e, dessas, apenas uma faz sucesso.

“Foi justamente para aumentar as chances de produzirmos mais sucessos que a Fox decidiu criar um berçário de desenvolvimento de ideias”, afirmou o diretor. De acordo com ele, a Fox costuma investir no desenvolvimento que é realizado a quatro mãos, com a produtora e com o canal envolvidos. Para Braga, as produtoras ainda estão muito acostumadas com a produção de cinema. “Na televisão precisa ser diferente. É preciso usar mais ganchos. Nos primeiros três minutos para fisgar o espectador, outro entre um bloco e outro e outro, ainda mais importante, para o episódio seguinte”.

A Sony está presente em mais de 159 países e possui 11 milhões de assinantes no Brasil, onde se instalou há 17 anos. Alexandre David, responsável pelo desenvolvimento e produção de séries dos canais, explicou que quando o canal é internacional, não basta a autorização do diretor de produção no Brasil. O projeto precisa ser aprovado pela matriz da empresa. “Por isso ter um piloto do projeto é muito vantajoso. Ele facilita a comprovação de adequação ao perfil do canal”, explicou.

David mostrou para o público as diversas mudanças que ocorreram na primeira produção original brasileira da Sony, a série Agora Sim. Ele exibiu o piloto do programa utilizado para a negociação e depois um teaser da versão final, aprovada pela matriz.

Silvia Fu Elias, diretora nacional de conteúdo da Turner, explicou que a Turner possui 15 canais no Brasil e nove deles realizando produções nacionais. Os de ficção são TNT, Space, Tbs e Cartoon Network. “No primeiro momento da lei da TV paga nossa solução foi adquirir filmes nacionais, mas estamos com bastante interesse em desenvolver projetos por aqui também”, revelou.

A primeira série que estão realizando no TNT é Latitudes, que possui um formato inovador e multiplataforma. “Foi difícil explicar para os donos da Turner o novo sistema de cotas no Brasil e esse projeto ainda por cima era de uma produtora desconhecida. A sorte foi que os atores (Alice Braga e Daniel Oliveira) gostaram tanto que resolveram apoiar o projeto. E eles ainda conseguiram patrocínio de três marcas”, contou a diretora.

Quando questionados pelo moderador Roberto Moreira sobre o que mais sentem falta nos projetos do Brasil, os palestrantes concordaram que faltam boas ideias originais. “Nós não queremos uma mimetização, um Friends brasileiro”, afirmou David.

De acordo com Silvia, existe também uma falta de pesquisa e renovação. “A Turner recebeu muitos projetos de documentário com fórmulas antigas e nós não temos nenhum canal que exibe documentários”, desabafou. Marcelo Braga reafirmou a falta de originalidade: “Nós temos uma infinidade imensa de assuntos para serem tratados em variedades e a gente só recebe sempre os mesmo formatos de programa culinários e de viagem.”

No fim do dia, em parceria com a Sony, o NETLABTV realizou uma Masterclass com Elizabeth Devine, roteirista e produtora da série CSI: Crime Scene Investigation, uma das séries mais bem sucedidas nos Estados Unidos.