Celso Duvecchi do Projeto Terror Noturno

“A necessidade é sempre a mãe das melhores invenções”

 

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São Paulo/SP
Categoria: Ficção
Projeto:
Terror Noturno

Drama | Terror
Para salvar sua infância, Guto e seus amigos têm de enfrentar um enorme pesadelo: o monstro construído por seus próprios pais.

Até o terceiro ano do ensino médio, Celso Duvecchi estava decidido a fazer medicina. Mas quando estava fazendo cursinho foi ao cinema assistir ‘Má Educação’, de Pedro Almodóvar, e acabou decidindo mudar o rumo de seu seguro futuro profissional: foi cursar Audiovisual na Universidade de São Paulo.

Entretanto, o interesse pela medicina não o deixou completamente. Anos depois, ele teve a ideia para o argumento que criou para o NETLABTV, quando leu uma notícia sobre o Brasil ser o segundo maior consumidor do medicamento para tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, que também é utilizado para aumentar a concentração.

Duvecchi escreveu, então,  a série ‘Terror Noturno’, sobre a perspectiva das crianças que têm sua criatividade domada pelos próprios pais e sobre quão assustador pode ser esse universo para elas. Confira a entrevista com o roteirista e um dos oito vencedores do NETLABTV:

NETLABTV – Como surgiu seu interesse pela área de roteiro?
Celso Duvecchi –
O mesmo clichê de sempre: sempre gostei de escrever, desde criança. Poesia, histórias, cartas. Lembro que escrevia pequenas peças de teatro e fazia os amigos da rua onde eu morava participarem. Meu sonho sempre foi ter uma câmera filmadora. Acho que se eu tivesse a câmera, desenvolveria mais o gosto pela direção. Mas eu tinha papel e caneta. E livros. Sempre andei com papel, caneta e um livro, pelo menos. Quando saí da escola pública e fui estudar, com bolsa, numa escola particular, meus novos amigos tinham câmeras filmadoras. Eu enlouqueci. Fazia todos os trabalhos da escola filmados. Eu ia fazer medicina, mesmo gostando muito de cinema. Mas um dia, depois de sair do cursinho, fui ao cinema e vi “Má Educação” do Almodóvar. Aquele roteiro me encantou! Saí do cinema e disse pra mim mesmo que era aquilo que eu queria fazer para o resto da minha vida.

NETLABTV – Conte sobre sua experiência em audiovisual.
Celso Duvecchi –
Apesar de gostar muito de cinema e TV, só decidi seguir essa carreira no cursinho. Foi um baque grande para minha família, pois eles esperavam um médico e teriam um cineasta. Prestei o vestibular da USP e passei. E foi bastante complicado, pois fiz a faculdade toda indo e voltando, diariamente, para Itu. Mas era realmente o que eu queria fazer. Na faculdade percebi que não me entendia com a área técnica. Fotografia e som são áreas que não consigo acompanhar. Me dediquei, então para roteiro e produção. Depois de formado, passei a trabalhar como assistente de produção executiva, a estudar roteiros e escrever à noite e nas madrugadas. Trabalhei um tempo com a Chris Rieira, como pesquisador do pós-doc dela. Escrevi o meu primeiro curta, “Coisas Frágeis”, que foi vencedor do Edital de Co-Patrocínio de Curtas da Prefeitura. Também comecei a escrever para o diretor Carlos Nader, para quem já estou desenvolvendo o segundo longa-metragem.

NETLABTV – Qual é sua formação (formal e/ou informal) como roteirista?
Celso Duvecchi –
Formalmente fiz o curso Superior do Audiovisual da USP. Depois participei como pesquisador para o pós-doc da Chris Rieira. Fiz diversos cursos com McKee, Pedro Furtado, Aleksei Abib, o dramaturgo Léo Moreira, Adriana Falcão. Informalmente, credito a minha formação aos filmes do Almodóvar e do Mike Leigh. São diretores que, de maneira bem diferentes, me inspiram e ensinam a cada filme revisto.

NETLABTV – Para você qual a importância de desenvolvimento de séries no Brasil?
Celso Duvecchi –
O Brasil é reconhecido pela qualidade de suas novelas, mas acredito que há uma demanda crescente – além da criada pela lei – pela produção televisiva mais concentrada e diversificada, haja visto o sucesso das séries americanas no Brasil. Pode-se ver claramente que há um público que deseja consumir produtos de qualidade em menores quantidades de tempo e maior diversidade temática. A lei da TV a cabo aumentou essa demanda e precisamos encontrar nossa maneira de fazer, que não deve ser um cópia da produção americana nem pode ser a redução de uma novela. Há a necessidade de encontrarmos a linguagem brasileira para as séries. E a necessidade é sempre a mãe das melhores invenções.

NETLABTV – Na sua opinião, quais são os desafios de criar conteúdo para o mercado de TV? Celso Duvecchi – Chegar ao público é o maior desafio ao se criar conteúdo audiovisual. É também o maior objetivo. É claro que dentro do processo de produção de qualquer obra audiovisual há tantos estágios e tantas pessoas envolvidas que as escolhas dramatúrgicas feitas no argumento podem não chegar à peça final. E essa é uma cadeia tão grande e tão cara que é difícil se ter apostas grandes em formatos novos, gêneros ou temáticas incomuns. O que deixou a produção de séries existente até então engessada em alguns formatos de sucesso. Mas acredito que as coisas estão mudando. Aos poucos, o mercado vai ficando mais aberto a essas apostas e o público mais receptivo. Ganhar o NETLABTV com uma série de terror juvenil sobre medicalização da educação me deixa muito otimista com essa abertura para o novo.

NETLABTV – Quais são as maiores dificuldades que o profissional do setor audiovisual encontra hoje no mercado televisivo?
Celso Duvecchi –
Para os roteiristas, pelo menos os novos, há a conhecida lenda de que o Brasil não tem roteiristas. O NETLABTV conseguiu mostrar que a coisa não é bem assim. Foram 1.800 projetos inscritos. Ainda que todas as pessoas que inscreveram projetos não vivam ou queiram viver de roteiros, deve haver pelo menos uns mil projetos a serem considerados e uma grande quantidade de profissionais capacitados para o mercado. Mas acho que agora o mercado caminha para abrir mais vagas e dar mais chances aos talentos que existem no Brasil inteiro. É uma questão de aumento da demanda e a necessidade de se encontrar e profissionalizar os talentos.

NETLABTV – Que oportunidades você espera que o Concurso NETLABTV traga para sua carreira?
Celso Duvecchi –
O concurso colocou o meu nome no mercado. Eu me formei na faculdade há dois anos e não tenho produtora. Então, a cada edital, eu colocava meu projeto debaixo do braço e batia de porta em porta das produtoras, pedindo uma vaga para me inscrever. E como ninguém me conhecia, nem sabia meu nome e muitas vezes não tinham tempo para ver o projeto, eu ficava fora dos editais. Mesmo antes do resultado do NETLABTV eu recebi ligações de produtoras, querendo meus projetos para entrar nos editais. Já foi uma mudança e tanto. Foi uma primeira porta aberta pelo NETLABTV.

NETLABTV – O que te motivou a inscrever seu projeto no Concurso NETLABTV?
Celso Duvecchi – Terror Noturno foi a primeira série que escrevi. Inscrevê-la num concurso de séries foi uma forma de me avaliar também. Mas acredito que a motivação maior estava na participação dos canais no concurso e a possibilidade de ganhar e ter a série lida por eles. Até por isso havia o medo e a vontade de participar com uma temática mais arriscada.

NETLABTV – Por que ficção?
Celso Duvecchi – Minha primeira ideia quando me deparei com a notícia sobre a medicação infantil foi propor algo documental. Mas eu queria contar essa história pelos olhos de uma criança. Queria poder ver o que ela está entendendo desse processo de medicalização que está passando. Aí a ficção falou mais alto. O mundo fantástico que a mente de uma criança possibilita se tornou mais atraente para mim. E acho que para um futuro público desse conteúdo.

NETLABTV – Como surgiu o tema da sua série?
Celso Duvecchi –
Surgiu de uma notícia que li sobre o Brasil ser o segundo maior consumidor de Metilfenidato, um medicamento para tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, que também é utilizado para aumentar a concentração. O consumo no Brasil tem picos nos meses escolares e queda nos meses de férias. Essa notícia ficou na minha cabeça. Como eu queria escrever a história pelo viés da criança, pensei numa trama que unisse os filmes “História Sem Fim” e “A Hora do Pesadelo”. As crianças, quando tomassem o remédio iriam para um mundo fantástico, mas haveria um assassino tentando matá-las. E esse assassino seria a fabulação da ação do remédio, matando o que elas têm de criativo e infantil e transformando-as em seres mais maduros e mais focados. Depois disso, criei todo o resto.

NETLABTV – E como foi o desenvolvimento do roteiro?
Celso Duvecchi – A primeira versão era mais leve e o terror era mais uma aventura. Mas eu não estava tão satisfeito. Porque se o público fosse muito novo, eles perderiam a camada de discussão social do remédio. Então envelheci um pouco a série. A versão que enviei para o concurso NETLABTV focava pré-adolescentes de 11 a 16 anos. Acho que é uma faixa etária carente de produtos destinados a eles, principalmente de terror. Talvez seja necessário aumentar o terror e transformar em uma série adulta. Mas não estou seguro disso. Espero que as devolutivas que eu terei no laboratório e as conversas com os canais me mostrem o caminho melhor a seguir.

NETLABTV – Qual importância de participar do Laboratório e da consultoria?
Celso Duvecchi –
A possibilidade de imersão na série é fantástica. Tendo ainda profissionais experientes discutindo, levantando questões, apontando as falhas e trabalhando para o crescimento da série é algo incrível. Além disso, o encontro com os canais. Ter a possibilidade de conversar e entender as demandas de cada canal, o que eles estão buscando para suas grades de programação, é uma oportunidade indescritível.