Claudia Mattos do Projeto A Marca da Vaidade

“A gente inventa uma história que se concretiza e ainda ganha para isso?”

 

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Rio de Janeiro/RJ

Categoria: Não Ficção

Projeto: A Marca da Vaidade
Variedade

Documentário

Desde que o mundo é mundo, o ser humano sempre esteve disposto a fazer sacrifícios em nome da vaidade, porque as marcas da vaidade são também marcas da sedução e do poder.

 

Quando pequena, a carioca Claudia Mattos pensava que todas as cenas que via no cinema eram reais. Quando descobriu a verdade, seu interesse por roteiro surgiu imediatamente. Ela ficou encantada com o fato de alguém poder imaginar e inventar uma história que se concretizaria em imagens (“e ainda ser pago para isso!”).

Formada em jornalismo, Claudia trabalhou por 15 anos nos principais jornais do país. Em 2006, trocou o jornalismo pelo audiovisual e, desde então, vem atuando como roteirista e produtora.

A roteirista enviou três projetos para o concurso NETLABTV. O vencedor foi “A Marca da Vaidade”. A série mostra que, desde as civilizações mais antigas, o ser humano esteve disposto a fazer sacrifícios em nome na vaidade. Se hoje se submete à lipoaspiração, durante séculos usou espartilho. Mais do que para satisfazer a si mesmo, o ser humano quer ser belo para levar vantagem na conquista do outro.
NETLABTV – Como surgiu seu interesse pela área de roteiro? 

Claudia Mattos – Vou ao cinema desde criancinha. Durante algum tempo acreditei que tudo ali era real e a câmera só filmava o que realmente estava acontecendo. Até que um dia minha mãe me contou que era tudo armação. “Quer dizer que tem uma pessoa que imagina uma história e pode ver essa história acontecer bem ali na sua frente?”, perguntei. “Por aí”, ela disse. “E a pessoa que inventa a história ainda ganha pra isso?”, insisti. “Acho que sim”, ouvi minha mãe dizer. Naquele dia eu quis ser – além de a melhor jogadora de vôlei do mundo; a cientista vencedora do Nobel de Física, Química e Biologia; a mulher mais desejada do planeta; a atriz recordista do Oscar; a cantora mais popular do universo – roteirista. Não cresci o suficiente pra ser boa no vôlei, nunca entendi a tabela periódica, além de baixinha sou gordinha, sou tímida demais pra fazer teatro e desafino no parabéns pra você; mas sou a pessoa mais feliz do mundo porque invento histórias que se materializam bem na minha frente e ganho pra isso!

 

NETLABTV – Conte sobre sua experiência em audiovisual

Claudia Mattos – Tenho uma tonelada de roteiros não produzidos, outra de projetos rejeitados e umas 300 páginas de material filmado. Um longa (180 Graus), um curta (O Papel e o Mar), um making of (do 180 Graus), uma série de TV (Heróis de Todo Mundo) e uma penca de institucionais. Ganhei alguns prêmios com o longa-metragem, mas ainda são os institucionais que pagam as contas no fim do mês.

 

NETLABTV – Qual é sua formação (formal e/ou informal) como roteirista?

Claudia Mattos – Nunca fiz curso. Minha formação é totalmente informal. De um lado, o jornalismo, atividade que exerci por 15 anos e que me deu disciplina, compromisso com deadlines e a obrigação de procurar em fatos prosaicos acontecimentos interessantes. De outro, os livros sobre roteiro, dos quais suguei a técnica. Por fim, e mais importante, todos os filmes que eu vi e todos os romances que eu li.

 

NETLABTV – Para você, qual a importância de desenvolvimento de séries no Brasil?

Claudia Mattos – Total. As séries têm se mostrado a ponta mais ousada da dramaturgia audiovisual. Porém, isso só faz sentido se o investimento for feito em quem inventa histórias, no criador de universos narrativos.

 

NETLABTV – Na sua opinião, quais são os desafios de criar conteúdo para o mercado de TV? 

Claudia Mattos – O grande barato é criar algo que tenha frescor criativo, qualidade técnica e que, ao mesmo tempo, caia no gosto popular.

 

NETLABTV – Quais são as maiores dificuldades que o profissional do setor audiovisual encontra hoje no mercado televisivo?

Claudia Mattos – Só posso falar sob o ponto de vista do profissional roteirista. As produtoras esperam que o roteirista trabalhe de graça, que assine um contrato de risco, no qual o único elemento da equação que se arrisca é ele, que cria um universo narrativo, os personagens que nele habitam, os cenários, uma proposta visual, as sinopses e alguns roteiros de episódios – isso sem falar nas justificativas, objetivos e afins. No final, se o projeto dá certo, seu criador é quem menos ganha. Se dá errado, ele é o único que perde, porque trabalhou de graça. Portanto, é importante alterar essa cadeia produtiva. Um caminho é o roteirista assumir o papel também de produtor nos moldes do que os americanos chamam de showrunner. Nesse sentido, iniciativas como o NETLABTV são excelentes, porque põem os roteiristas em contado com as programadoras e dão a quem cria a oportunidade de aprender as regras e necessidades do mercado.

 

NETLABTV – Além disso, que oportunidades você espera que o Concurso NETLABTV traga para sua carreira?

Claudia Mattos – A possibilidade de aprimorar, vender e realizar as histórias que imagino, através da troca de ideias e experiências com colegas roteiristas e consultores e do contato direto com os canais e programadoras.

 

NETLABTV – O que te motivou a inscrever seu projeto no Concurso NETLABTV?

Claudia Mattos – Justamente a possibilidade de aprimorar, vender e realizar as histórias que imagino.

 

NETLABTV – Por que não ficção?

Claudia Mattos – Escrevo ficção e não ficção. Inscrevi três projetos no NETLABTV – o limite do edital. Um de não ficção (A Marca da Vaidade) e dois de ficção (Os Subs e Divisão Especial). Quero acreditar que meus projetos de ficção só não foram selecionados porque o edital previa apenas um projeto selecionado por proponente (risos). Mas acho que “Os Subs” e “Divisão Especial”estejam no mesmo nível de “A Marca da Vaidade”. Para o bem ou para o mal.

 

NETLABTV – Como surgiu o tema da sua série?

Claudia Mattos – Surgiu da vaidade que todos nós temos, mesmo que admiti-la seja penoso.

 

NETLABTV – Fale um pouco sobre a série e o público potencial.

Claudia Mattos – A série fala da vaidade sem exaltá-la nem condená-la. Com humor e certa dose de ironia, mostra que ela sempre esteve presente no ser humano em todos os tempos. O conceito de belo e os procedimentos para atingi-lo mudaram ao longo dos séculos, mas em todas as épocas o ser humano fez sacrifícios em nome da vaidade. Visualmente, a série usa como ponto de partida as obras dos grandes mestres da pintura e da escultura. Cada episódio aborda um tema específico relacionado a uma parte do corpo. Creio que, com essas características, a série tenha potencial para atrair tanto quem é assumidamente vaidoso quanto quem condena o hedonismo dos nossos dias.

 

NETLABTV – Qual importância de participar do Laboratório e consultoria?

Claudia Mattos – A possibilidade aprimorar as histórias que eu invento e de criar network que me permita vender e realizar as séries.