Entrevista com Patrícia Oriolo

Fundamental é conhecer o mercado, a programação dos canais  e entender como a sua ideia pode dialogar com os exibidores. Procurar ideias que se diferenciem, que não sejam mais do mesmo.

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NETLABTV - Conte-nos um pouco sobre a Associação de Roteiristas e seus principais desafios.

PATRÍCIA ORIOLO - A AR surgiu em julho de 2000,  com apenas 73 roteiristas. Hoje, temos mais de 300 associados no Brasil inteiro. Nosso principal desafio é lutar pelos direitos dos roteiristas, principalmente nesse momento em que existem grandes oportunidades no mercado do audiovisual, por conta da lei das cotas. Nossas preocupações são muito amplas e abrangem desde estabelecer melhores condições de trabalho, direitos autorais e contratos mais justos, até a formação profissional. Outro importante objetivo da AR é promover a troca de informações e experiência entre os profissionais.

NETLABTV - A Associação é parceira do CONCURSO NETLABTV desde a primeira edição. Quais são os diferenciais do NETLABTV para roteiristas e criadores brasileiros em relação a outros editais e concursos semelhantes?

PATRÍCIA ORIOLO - O NETLABTV é um concurso que, de maneira pioneira, premia o roteirista. Não é preciso estar associado a uma produtora ou se inscrever como empresa, como acontece em outros editais e que, em muitos casos, inviabilizam a participação dos roteiristas. E esse é um grande diferencial para a valorização do profissional. Mas eu acho que a questão principal é dar ao roteirista a autonomia de negociação junto aos canais. O Netlabtv promove uma aproximação entre todas as pontas da cadeia de produção do audiovisual: canal, produtora e criador. Esse tipo de pensamento é único. Não conheço outro edital que tenha essa premissa e que dê a chance real de levar uma ideia a quem pode tirá-la do papel.

NETLABTV - O NETLABTV tem como um dos seus desafios ampliar o diálogo entre criação e mercado. Autoralidade ou mercado? Explique como funciona o equilíbrio entre estes dois universos na criação de conteúdos para TV.

PATRÍCIA ORIOLO - Acho que nem sempre é preciso fazer distinção entre as duas coisas. Há espaço para ideias autorais dentro do mercado. Mas a questão, nesse caso é mais subjetiva. O autor precisa se perguntar o que ele quer? Qual é o seu projeto, além do projeto apresentado? Se ele quer conquistar as massas e fazer um trabalho para um público mais amplo, em um canal que busca resultados e audiência, a sua ideia vai ter que passar pelo liquidificador que determina a posição editorial do exibidor e ele vai ser obrigado a lidar com isso. Claro que tudo tem um meio termo, e conversando é possível chegar a consensos bom para os dois lados. Agora, se o roteirista almeja exclusivamente realizar um projeto autoral, ele precisa procurar canais, que podem ser a televisão ou a internet por exemplo, onde a sua ideia se encaixe do jeitinho que ele quer, fazendo poucas ou nenhuma concessão. É, ao meu ver, uma decisão artística, que passa pelo perfil de cada criador. Você faz uma escolha e precisa bancá-la. Porque realizar um projeto é muito trabalhoso, leva tempo, dinheiro e são muitas as etapas. A ideia autoral sobrevive a todas elas? Se sim, então é um projeto forte, estruturado que tem tudo para fazer sucesso. E também pode acontecer da ideia mais comercial se mostrar  fraca e inconsistente, e não sobreviver durante o processo de produção.

NETLABTV - Regionalização da produção é um tema corrente no atual debate sobre o audiovisual no brasil. Conte-nos sobre as ações necessárias à regionalização da criação de conteúdos para TV.

PATRÍCIA ORIOLO - Acho que existem duas coisas importantes para que a regionalização se torne realidade: viabilização comercial e formação. E é importante não confundir regionalização, com a produção de conteúdo com temas típicos. Regionalizar é democratizar a informação, capacitar mão-de-obra, abrir espaços para novas ideias e linguagens, mostrar o Brasil para o mundo além de seus estereótipos. Mas diante da realidade das produtoras independentes e das emissoras de televisão nas regiões longe do eixo Rio-São Paulo-Porto Alegre, comercialmente só mesmo com políticas públicas, como a lançada recentemente no “Brasil de todas as telas”, para começar a ter algum movimento. Ainda vai levar alguns anos para os resultados aparecerem. Quanto a formação é preciso investir nos profissionais, dando chance para que eles além de aprender também ponham em prática o conhecimento adquirido. Nessa questão sou bem realista: ainda temos um longo caminho a percorrer.

NETLABTV - Fale-nos um pouco sobre o que roteiristas precisam ter em mente ao propor um projeto de série para TV?

PATRÍCIA ORIOLO - Fundamental é conhecer o mercado, a programação dos canais  e entender como a sua ideia pode dialogar com os exibidores. Procurar ideias que se diferenciem, que não sejam mais do mesmo. Precisamos pensar que no universo da criação de formatos estamos muito atrasados. Passamos muito tempo apenas produzindo o que vinha pronto de fora. E eu acho que o melhor caminho para encontrar ideias inovadoras é olhar para dentro do Brasil e do nosso povo. Explorar nossos valores e costumes, além dos estereótipos é claro. Contar nossa história, nosso jeito de ver o mundo e de ser. Tenho certeza que assim podemos surpreender, conquistar audiência e encantar o mundo.