Jhésus Lula do Projeto Voragem

Policial investigativo, horror e mitos regionais da Paraíba para o mundo

 

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Campina Grande – PB
Categoria Ficção
Projeto:
Voragem
Drama | Terror | Coautores: Fabiano Raposo Costa e Ramon Porto Mota
Policial é enviado a uma cidade do sertão da Paraíba para resolver um caso atípico: o sobrinho do governador do estado desapareceu e os prováveis envolvidos acreditam que foi o diabo quem o levou.

O paraibano Jhésus Lula trabalha com audiovisual desde 2009 e participou de vários curtas locais, seja como assistente de direção ou diretor de fotografia. Foi co-roteirista de “Ato institucional” (Helton Paulino, 2012) e “O Desejo do Morto” (Ramon Porto Mota, 2013 – em processo de pós-produção).

Formado em Arte e Mídia pela Universidade Federal da Paraíba (UFCG), Jhésus sempre vislumbrou a possibilidade de trabalhar apenas como roteirista, mas o contexto da Paraíba, segundo ele, ainda não permite essa escolha.

Voragem, seu projeto de ficção premiado pelo NETLABTV, é uma série que mistura investigação policial, terror e lendas regionais do sertão da Paraíba, “com todas bizarrices históricas e políticas típicas destas bandas”.

NETLABTVComo surgiu seu interesse pela área de roteiro?

Jhésus Lula: Sempre gostei de escrever e o interesse por filmes foi incutido pela minha mãe, que começou a me levar para o cinema quando descobriu que eu ficava mais quieto lá do que em casa, imagino. Com o tempo, veio a cinefilia, a vontade de produzir e, junto com tudo isso, aqueles picos de instigação onde você acha que pode fazer tudo o que der vontade. O pico durou o suficiente pra me fazer entrar no curso de Arte e Mídia e, mais à frente, findar trabalhando com audiovisual.

O pulo para o roteiro demorou um pouquinho, mas acabou chegando quando eu decidi estudar mais sobre o assunto, escrever e botar antigas ideias para frente. Algumas nunca saíram do papel. Outras deram levemente certo. Com ajuda dos amigos, que sofrem me ouvindo falar do que estou escrevendo ou são intimados a dar um parecer sobre algo, acabei me animando e querendo ler mais, escrever mais.

NETLABTVConte sobre sua experiência em audiovisual.

Jhésus Lula: Meu primeiro contato foi durante o curso de Arte e Mídia, na UFCG. Tive aulas sobre cinema/vídeo, direção, direção de fotografia e fiz trabalhos em grupo que normalmente envolviam participação em set de filmagem. Nada muito profissional, mas o suficiente para começar a entender a dificuldade que é trabalhar em grupo e lidar com gente. Foi nessa época que aprendi um pouco sobre roteiro também, mas apenas o geral, sem aprofundamentos.

Depois que me formei, em 2009, comecei a pegar alguns trabalhos como assistente de direção e assistente de fotografia (“Terra Erma” e “Depois da curva”, de Helton Paulino; “Tudo o que Deus Criou”, de André da Costa Pinto). Foi aí que comecei a entender como funcionava um set de verdade, com prazos e obrigações. Trabalhei como diretor de fotografia nos curtas do Ian Abé (“Mais Denso que Sangue” e “Cova Aberta”), do Fabiano Raposo (“Enquanto a Justiça Tarda”) e de Ramon Porto Mota e Anacã Agra (“O Hóspede”).

Ano passado comecei a estudar roteiro com mais profundidade. Sempre vislumbrei a possibilidade de trabalhar só com isso, mas o contexto daqui da Paraíba ainda não me permite esse luxo. De qualquer forma, li alguns livros e acabei ajudando o Ramon Porto Mota com o roteiro do filme mais recente dele, “O Desejo do Morto”, que está rodando por alguns festivais neste momento. Foi um teste de fogo e, no final das contas, acabou me dando o estímulo necessário para querer estudar ainda mais e continuar escrevendo. Também co-roteirizei o “Ato Institucional”, do Helton Paulino, que me ajudou muito a pegar ritmo e a entender melhor todo o processo.

NETLABTVQual é sua formação (formal e/ou informal) como roteirista?

Jhésus Lula: Para além das noções gerais da faculdade, posso dizer que o que realmente me formou foram os livros que li e os filmes/séries que assisti. Claro que acho importante ter aulas específicas – fazer cursos, workshops –, mas a internet te dá a oportunidade de ler análises diversas, ver tanto os trabalhos clássicos quanto os modernos com outros olhos. Nesse sentido, os blogs sobre roteiro e os infinitos artigos e dissertações sobre diversos tópicos de “Chinatown” até “The Wire”, sempre me ajudaram. E imagino que vão continuar sendo de grande valia.

NETLABTV – Para você qual a importância de desenvolvimento de séries no Brasil?

Jhésus Lula: É uma oportunidade de criação, um novo veículo para novas ideias ou para ideias que não podem ser totalmente viabilizadas criativamente no cinema ou nos quadrinhos, por exemplo. Claro que alguém pode dizer que uma ideia boa funciona em qualquer mídia, mas não acho que seja assim. Tem hora que aquele seu roteiro gera uma especificidade que vai implodir caso vire um curta, um longa ou um conto. Então, ter a oportunidade de trabalhar o conceito já vislumbrando uma série é importante, tira algumas amarras que poderiam prejudicar o produto final.

Desenvolver esse tipo de produto por aqui é desenvolver novos espaços criativos, dar margem para que tentativas e experimentos possam ser feitos, o que, no final das contas, gera experiência e, espero eu, um material forte.

NETLABTV- Na sua opinião, quais são os desafios de criar conteúdo para o mercado de TV? 

Jhésus Lula: Os desafios são tantos que daria pra escrever um livro só para enumerá-los. Em primeiro lugar, temos que aprender onde pisamos, quais são os projetos e as expectativas de todos os setores envolvidos. Como esse mercado é relativamente novo, não existe a facilidade de ter vários estudos de caso – como no cinema, onde se tem noção (até certo ponto, claro), de como as coisas funcionam, onde está o problema e o que se tem de fazer para superá-lo. Além disso, não há a certeza de que o conteúdo vai ser bem recebido, se vão apostar nele ou o que pode ser feito.

Fora isso, existem os desafios de ordem criativa e técnica, que influem tanto na escrita do roteiro (o tamanho dos arcos dos vários personagens – que podem durar temporadas –, as sub-tramas, o que é realmente interessante), quanto na pré-produção (quantidade de profissionais envolvidos, locações, como organizar). Ou seja, você tem de estar sempre de olho, tentar conter o máximo possível de danos dentro de um terreno ainda pantanoso e, acima de tudo isso, exercitar a liberdade criativa!

NETLABTV –  Quais são as maiores dificuldades que o profissional do setor audiovisual encontra hoje no mercado televisivo?

Jhésus Lula: Aqui na Paraíba, o mercado televisivo ainda é muito reticente no que diz respeito à criação de um conteúdo específico que não tenha a ver com jornalismo. Existe uma dificuldade em acertar a grade de programação e em viabilizar o projeto de forma que todos – emissora e profissionais envolvidos – saiam ganhando. Posso dizer que ainda existe uma grande distância entre o que se pensa em produzir cinematograficamente por aqui (curtas e longas) e o que poderia ser produzido para a televisão.

NETLABTV - Que oportunidades você espera que o Concurso NETLABTV traga para sua carreira?

Jhésus Lula: Oportunidade de entrar em contato com outros escritores, realizadores e produtores; de discutir e tentar viabilizar ideias, projetos e de ter mais noção sobre como anda o mercado para além da Paraíba; e, principalmente, encontrar oportunidades de financiar o seriado e parceiros para produzi-lo. Num âmbito mais pessoal, posso dizer que espero ter a chance de trabalhar com algo que me anima e de ter novas experiências dentro do processo. Em resumo: virar um roteirista e ser humano melhor do que era na época em que escrevi o projeto.

NETLABTV –  O que te motivou a inscrever seu projeto no Concurso NETLABTV?

Jhésus Lula: A ideia do concurso era animadora: a possibilidade de ter contato com produtores de outro estado, de ser visto, foi o suficiente para que nós três nos movêssemos para fazer tudo da melhor forma possível e inscrever o projeto. Claro que você nunca sabe se vai ganhar, mas não dava para perder a chance de tentar.

NETLABTVPor que ficção?

Jhésus Lula: Se for pra dar uma resposta bonitinha, teria de citar o David Foster Wallace e dizer que a força da ficção reside no fato dela ser uma das poucas experiências onde a solidão pode ser, ao mesmo tempo, confrontada e aliviada. Como suspeito que isso não faz tanto sentido assim para alguns, prefiro completar dizendo que a ficção também é um bom modo de canalizar certas sensações e pensamentos de uma forma que te impeça de sair gritando por aí.

NETLABTVComo surgiu o tema da sua série?

Jhésus Lula: Surgiu das coisas que eu gosto: horror, niilismo, sangue, loucura e morte. Não que eu seja um misantropo, mas me anima poder trabalhar dentro de um gênero (policial/horror) com regras próprias e óbvias para todo mundo e poder acrescentar algumas coisas ali e acolá; poder ter a oportunidade de jogar um horror sobrenatural – algo meio M. R. James (1) misturado com o Algernon Blackwood (2) –, dentro de uma estrutura de investigação policial que não se passa na cidade grande, mas no sertão da Paraíba, com todas as bizarrices históricas e políticas típicas destas bandas.

O tema surgiu da vontade de trabalhar o gênero a partir de suas regras, mas de não ficar só nelas. O conceito inicial era fazer um longa, mas a estrutura da história era grande demais para caber de forma satisfatória em duas horas. Decidimos transformar em série, retrabalhar certas coisas, acentuar o paralelo entre horror e política, e devo admitir que ficou muito melhor.

NETLABTVFale um pouco sobre sua série e o público potencial.

Jhésus Lula: Voragem é uma série policial com uma estrutura aparentemente típica – um detetive vai investigar algo –, onde o clima de horror diabólico e cósmico vai se instaurando pouco a pouco, até tomar conta de toda estrutura. Como já disse, existe uma vontade em criar um paralelo entre horror e política (o tal poço abandonado da história, suposto lar do demônio, é uma lenda tão forte quanto o próprio histórico das duas famílias que tomam contam da região), mas é uma vontade que busca a ampliação do próprio clima da narrativa, uma camada que, se bem desenvolvida, ajudará a deixar tudo cada vez mais estranho e ambíguo.

Quanto ao público, imagino que qualquer pessoa que se interesse por esse tipo de gênero pode se animar para acompanhar o projeto. Tem um mistério, tem um bocado de gente estranha e suspeita interagindo entre si por motivos escusos, tem um poço bizarro que ninguém sabe explicar exatamente o que é e tem um pobre detetive perdido no meio disso tudo, só querendo completar o seu trabalho. Acho que é um bom ponto de partida para interessar os curiosos e entusiastas desse tipo de história. Voragem joga com nossa cultura e com a força do seriado americano.

NETLABTVQual importância de participar do Laboratório e consultoria?

Jhésus Lula: Ter outros olhos analisando o projeto, discutindo os pontos fortes e fracos é de grande valia. É uma aula que nunca tive, uma oportunidade única de aperfeiçoar a ideia e me aperfeiçoar também. Sem contar o fato de poder entrar em contato com profissionais experientes da área, que podem ajudar em certos pontos nebulosos do processo, dar dicas.