De olho em projetos que ousaram tanto na forma quanto na temática e na abordagem, o blog Inspire-se traz cinco exemplos de séries que deram o que falar em 2017 e prometem continuar influenciando tanto espectadores quanto criadores no futuro.

Desde as pioneiras Afronta e Empoderadas, a primeira exibida na TV e online e a segunda criada especialmente para o Youbute, quanto a premiada Carcereiros, lançada na plataforma GloboPlay, as narrativas são diversas e inspiradoras e a contemporânea Perrengue, que retrata o universo do Milleniuns. Confira:

Empoderadas (Websérie)

Roteiro: Renata Martins

Produção:

Direção: Renata Martins e Joyce Prado

Criada por Renata Martins em 2015, “Empoderadas” é uma das webséries que mais conquistaram público e crítica em 2017, pois seus novos episódios trouxeram também novos perfis de mulheres negras que se destacam na mais diversas áreas, da política ao cinema, das artes ao empreendedorismo. A lista inclui nomes como a Ana Fulô, que cria lindas bonecas de pano, a cantora e política Leci Brandão, a designer  Yvone Delpoio, Tia Cida, matriarca do Berço do Samba de São Matheus (em episódio com roteiro e direção de Maitê Freitas), entre tantas outras.

Estas histórias, que podem ser vistas na página do Facebook do projeto (https://www.facebook.com/programaempoderadas) e também no Youtube (https://youtu.be/pcBOqfcvjAQ), reforçam a representação das mulheres negras que, com seu trabalho, também contribuem para o fortalecimento de outras mulheres. “Nosso desejo era atribuir dignidade à trajetória das mulheres negras. Ampliar essas vozes e ressignificar a construção das nossas imagens. Nasceu como um exercício de coexistência. A partir das mulheres negras que entrevistamos, existíamos como realizadores de audiovisual. Lançar na internet era a forma mais barata e mais fácil de fazer o projeto acontecer”, comentou Renata Martins ao Inspire-se.

A roteirista e diretora, que para dividir a criação da série convidou a realizadora Joyce Prado, também observou que sempre fez questão que a equipe fosse formada essencialmente por mulheres negras. Assim, como afirmou, com a experiência de Empoderadas essas profissionais também se preparariam para o competitivo mercado audiovisual. O projeto, que virou referência na área de webséries documentais, já está em sua quarta temporada e vem ganhando cada vez mais espectadores e ótimas histórias.

Carcereiros (TV Globo / GloboPlay)

Roteiro: Marçal Aquino e Fernando Bonassi e Dennison Ramalho, com colaboração de Marcelo Starobinas

Produção: TV Globo, Gullane Filmes e Spray Filmes

Direção de Gênero de Guel Arraes, Direção Geral de José Eduardo Belmonte e

Elenco: Rodrigo Lombardi, Toni Tornado, Matheus Naschtergaele, Chico Diaz, Thogun Teixeira, Projota, Letícia Sabatella, Carol Castro, Caco Ciocler, Gabriel Leone, Samantha Schmutz, entre outros.

Lançada primeiro na plataforma Globo Play (https://globoplay.globo.com/carcereiros/p/10124/) em junho, e em setembro de 2017 no canalMais Globosat,  Carcereiros venceu o Grande Prêmio do Júri do Mip Drama – Cannes 2017. Única latino-americana entre as 12 séries selecionadas para exibição exclusiva no evento, um dos mais importantes do mercado de TV do mundo, batendo concorrentes de países como Inglaterra, Franças, Suécia e Rússia.

Inspirada na obra de Dráuzio Varela, a trama mergulha no universo penitenciário brasileiro de forma inovadora e intensa. “É uma grande conquista do audiovisual brasileiro. Joga luz sobre o sistema prisional brasileiro e revela como esta pessoa que não é vista pela sociedade lida com os grandes dramas de seu dia a dia”, comentou o diretor José Eduardo Belmonte.

A série conta a história de Adriano (Rodrigo Lombardi), um agente penitenciário que todos os dias tem de passar o cadeado e controlar o acesso às celas de um presídio. Defensor do diálogo e da não violência, ele tenta garantir o mínimo de tranquilidade em seu trabalho, que, apesar de não ter sido condenado, também vive o cotidiano de uma prisão. Quando não está na penitenciária, lida com sua filha adolescente e sua segunda mulher, que quer ter um filho, e com seu pai, que também foi carcereiro. A vida de Adriano é um embate diário entre impasses morais e éticos, entre conflitos do mundo prisional e do particular.

Dando força à narrativa de Carcereiros, a ação ficcional é entrecortada por entrevistas com agentes penitenciários reais e cenas das tantas rebeliões que ocorreram no Brasil nos últimos anos. Em uma rara mescla de documental e ficção, a trama da série cumpre a tarefa de entreter e narrar histórias poderosas tanto de personagens ‘inventados’ quanto reais.

Afronta (Canal Futura e Preta TV)

Roteiro: Juliana Vicente

Produção: Preta Portê Filmes com coprodução do Canal Futura

Direção: Juliana Vicente

Como o próprio slogan da produção diz, Afronta é uma série para se encarar de frente.  Lançada no Dia da Consciência Negra em 2017, tanto no Canal Futura como na TV Preta (https://www.youtube.com/channel/UC8EZgrJIEI523P3VV7BzaYQ), também está também disponível no Futura Play (http://www.futuraplay.org/).

A série documental tem criação de Juliana Vicente e Diana Costa  e sua primeira temporada é composta por 26 episódios de 15 minutos. Em cada um deles, Afronta conta a história de escritores, cineastas, artirtas, influenciadores, pesquisadores como o produtor musical Mahal Pita, a atriz e dramaturga Grace Passô, o rapper Rincon Sapiência, a bailarina Ingrid Silva, os cineastas Gabriel Martins e André Novais, a maquiadora Daniele DaMata, o artista multimídia Benjamim Abras, entre tantos outros.

O primeiro episódio contou a história da blogueira Loo Nascimento e já revelou que a voz da juventude negra contemporânea do Brasil é potente e diversa. Da Bahia ao Rio de Janeiro, passando por São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco, os personagens revelam suas histórias, lutas, conquistas, pensamentos, opiniões em conversas que são conduzidas por Juliana Vicente e exploram temas que a série se propôs a tratar já em sua concepção.

Mais do que revelar o cotidiano dos jovens perfilados, trata também de questões como a criação de uma nova narrativa da cultura negra, com olhar para o Afrofuturismo (movimento filosófico e estético), a espiritualidade, os encontros que se dão na afrodiáspora, entre tantas outras questões, sempre de forma descontraída e com montagem e edição ágeis e fluidas.

Perrengue (MTV)

Roteiro: Marco Borges, Renata Correa, Gustavo Rademacher, Gabriela Maria

Produção: Renata Fraga e Tatiana de Lamare  / MTV

Direção: Tatiana de Lamare

Elenco: Mariana Molina, Guilherme Dellorto e Cadu Vinícius Redd

Christiana Ubach, Bruno Ferrari e Rafael Sieg

Lançada em agosto de 2017, Perrengue é a primeira série de ficção da nova fase da MTV. Sucesso de crítica e público, é dividida em 13 episódios que retratam o universo jovem com uma narrativa descontraída, ousada e bem humorada. Toda rodada no Rio de Janeiro, acompanha Pérola (Mariana Molina), Miguel (Guilherme Dellorto) e Cadu (Vinícius Redd), amigos inseparáveis desde a adolescência.

Como bem observaram os criadores da série, Perrengue é uma selfie sem filtro de das questões que envolvem a entrada na vida adulta: trabalho, família, drogas, aborto, sexo, relações livres e experiências homo-afetivas. Com roteiro despojado, mas bem trabalhado, Perrengue revela os conflitos que os jovens encaram sem preconceitos, fazendo com o que até o mais antiquado dos espectadores divida com os personagens seus dramas, seus amores, desafios e momentos de reflexão.

A série não pinta a juventude como um período apenas de diversão, mas também de angústias. Isso sem cair no óbvio ou no artificialismo. Para completar, a dinâmica entre o trio de protagonistas é o ponto forte, sem contar a estratégia de engajar o público jovem, e Milleniuns como os personagens, com a criação de perfis nas redes sociais  para Cadu aqui, Pérola aqui e Miguel aqui.

1 Contra Todos (Fox)

Roteiro: Thomas Stravus, Gustavo Lipsztein e Breno Silveira

Produção: FOX Brasil e Conspiração Filmes

Direção: Breno Silveira

Elenco: Júlio Andrade, Adriano Garib

Indicada ao Emmy 2017 na categoria Melhor Ator (Júlio Andrade), 1 Contra Todos é inspirada em fatos reais e com roteiro afiado e considerada por muitos críticos como a “Breaking Bad Brasileira”. Além da tensão constante, a premissa já explica o porquê: o protagonista é um pai de família que se envolve em atividades ilícitas para proteger mulher e filhos.

Produzida pela FIC e pela Conspiração Filmes e veiculada pela FOX Brasil, estreou em 2016 e teve sua segunda temporada foi exibida a partir de 2017 na Fox e na Fox Premium. Dirigida pelo renomado Breno Silveira, foi a série brasileira mais vista na TV paga brasileira.

Na primeira temporada, a trama girava em torno dos conflitos de Cadu (Júlio Andrade), um advogado dedicado e honesto que, com a esposa grávida do seu segundo filho e recentemente desempregado, é acusado e condenado à prisão após ser confundido com o maior traficante de drogas do Brasil. Na cadeia, decide se comportar como o criminoso que todos já acreditam que ele seja.

Já a segunda temporada traz Cadu já solto depois de ter sido condenado. Se antes seu inferno era a vida no presídio, na nova fase é o poder que se torna sua nova prisão. Ele se torna deputado e tem de aprender a sobreviver em meio aos acordos ilícitos e ao tráfico de influência da política brasileira. E a vida em Brasília acaba corrompendo e corroendo o anti-herói, que se vê em situações que parecem surreais, mas que foram muitas vezes baseadas em episódios reais que a equipe de Breno Silveira pesquisou no noticiário político do Brasil.

O equilíbrio entre uma trama ficcional bem construída com elementos da vida contemporânea do Brasil garantiram seu sucesso. “O público quer assistir coisas mais ricas do que novelas”, afirmou o diretor à Folha de S. Paulo. “Mostramos como as cadeias realmente são em nosso país. Crio personagens de modo que as pessoas se projetem neles, pois são pessoas normais e não estereótipos.”

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