Para o roteirista e jurado na Categoria Ficção do NETLABTV 2017criar uma série é criar um mundo e, portanto, é crucial que o autor de obras seriadas pense seus projetos como um universo, “que, até contém uma história, ou várias, mas não se reduz a isso.”

“Você vai desenvolver uma trama, mas essa trama tem que estar dentro de um mundo que você criou que pode gerar outras tramas”, completa ele.

Em entrevista ao Blog Inspire-se, David reflete sobre esta questão e também sobre como o Brasil está produzindo roteiros para séries e como está encarando e interpretando o mercado.

David França Mendes é Diretor de Criação e Roteirista-Chefe da produtora Mixer e escreveu, entre outros, o roteiros dos longas Corações Sujos (de 2011, vencedor do Prêmio Cinema Brasil de Melhor Roteiro Adaptado e do Prêmio Especial de Cinema da Academia Brasileira de Letras) e O Caminho das Nuvens (2002). Além disso, criou e dirigiu os writers rooms das séries A Garota da Moto (finalista do Prêmio APCA de Melhor Série de 2016) e Quase Anônimos (Multishow). Atualmente, David está envolvido na produção da segunda temporada da série A Garota da Moto, criada em parceria com João Daniel Tikhomiroff, diretor da Mixer.

Para ele, a consolidação do profissional de roteiro no Brasil ainda está condicionada a uma série de fatores, tais como as dificuldades de ensino na área e a carência de métodos, que, segundo ele, ocorre até em Universidades que oferecem cursos para a formação de roteiristas.

Outro fator importante diz respeito ao próprio mercado, em que muitas vezes a função do roteirista não é bem compreendida. David cita o exemplo da nova temporada de Twin Peaks (de David Lynch e Robert Frost, que estreou mundialmente no primeiro semestre deste ano), que teve baixa audiência e foi considerada por alguns jornalistas um fracasso. No entanto, como observa o roteirista, a série fez com que o número de assinantes do canal Showtime, que produziu a temporada, aumentasse. “Então, isso é sucesso ou fracasso?”, comenta.

Em termos de roteiro, conseguimos definir quais as principais diferenças e os pontos em comum entre um roteiro de série e um roteiro de cinema?

A escrita do roteiro em si, de um episódio, não é diferente da escrita de um roteiro de longa-metragem. Você tem que pensar em ganchos de fim de bloco e de fim de episódio na série, mas no longa você também tem que ter pontos de virada para manter o público interessado. Tem a diferença na duração. Um longa pode variar muito de duração, enquanto os episódios de uma série têm sua duração prevista pelo canal que a exibe.

Mas a grande diferença não é nada disso. A grande diferença não está na escrita do roteiro. Ela está na criação inicial. Você cria um longa em grande parte pensando na história que vai contar. Já uma série tem que ser pensada como um universo, que até contém uma história, ou várias, mas não se reduz a isso.

Criar uma série é criar um mundo. No Brasil,  ainda se criam séries desenvolvendo uma trama. Você vai desenvolver uma trama, mas essa trama tem que estar dentro de um mundo que você criou que pode gerar outras tramas.

Com relação aos gêneros mais produzidos no Brasil, no cinema vemos que a comédia é o que conquista mais bilheteria. Falando sobre séries, isso também pode ser observado quando pensamos em audiência?

Em séries, a gente não tem uma amostragem tão simples como nos filmes. Um longa deu público ou não deu. Na série não é bem assim. Um canal premium, por exemplo, pode renovar uma série mesmo ela não tendo uma audiência enorme, caso ele entenda que essa série, pelo seu prestígio, pode ser importante para manter assinantes para o canal.

A imprensa que cobre séries no Brasil também não entendeu isso. Nem tudo, no mundo da TV por assinatura (cabo ou streaming) é igual à lógica Ibope da TV aberta. Outro dia o UOL fez uma matéria sobre o suposto fracasso de Twin Peaks, que teve baixa audiência. Sim, teve, mas aumentou o número de assinantes do Showtime, o canal que produziu a temporada. Então, isso é sucesso ou fracasso?

Por tudo isso, acho que ainda é muito cedo para ter essa resposta. E acho isso ótimo, porque significa que ainda é um momento em que dá para tentar muita coisa diferente.


Como professor de roteiro de séries, o que você observa como principais dúvidas de quem está começando? Há algum ponto ou elemento que quem é iniciante e tem mais dificuldade para entender ou desenvolver?

A coisa mais difícil para um roteirista é a estrutura narrativa. Isso é muito mal ensinado. Poucos entendem como estruturar uma narrativa, em geral se agarram a duas ou três regrinhas do Syd Field (que nem estão propriamente erradas, mas que são claramente insuficientes) e não percebem que narrativa é fluxo de informação em termos de causa e efeito. Se você não consegue pensar nesses termos, não vai a lugar nenhum.

Construir a estrutura narrativa é a maior dificuldade de qualquer roteirista, e mais ainda dos iniciantes. A novela, com sua estrutura extremamente frouxa, fez a cabeça de todo mundo e isso também dificulta, porque a novela é meio a “anti-estrutura”.

Quanto ao roteirista de série, além dessa questão da estrutura, um outro problema é o desconhecimento do que é específico das séries. Então, ou as pessoas pensam em tramas, como num longa, ou pensam como numa novela, em núcleos de personagens, sem muito foco.


No seu curso você aborda também o mercado de trabalho. De maneira geral, com um olhar mais panorâmico, como está o mercado de séries hoje no Brasil? 

É um mercado que cresceu de repente e sofre um pouco dessas dores de crescimento. Tem muita tentativa e erro por parte de todo mundo. Mas já existe mais clareza por parte dos canais com relação ao que eles querem exibir. Quanto mais essa clareza existir, melhor.

Também há um amadurecimento dos criadores e das produtoras quanto à forma de apresentar um projeto. Algumas relações precisam melhorar. O roteirista, especialmente o que cria uma série, ainda não é valorizado como deveria. A verba para desenvolvimento dos roteiros de uma série ainda é bem mais baixa do que deveria ser, se for considerado que para escrever uma série é necessário uma equipe de três a seis pessoas full time durante meses. Há muito o que se melhorar, mas estamos indo razoavelmente bem.

 

Você costuma dizer que prefere ser chamado de escritor de cinema. O que seria diferente no seu ponto de vista ou do ponto de vista prático mesmo?

Esse termo, “escritor de cinema”, foi criado pelo Braulio Mantovanni, um dos nossos melhores roteiristas, dentro de um contexto de afirmar a importância de quem escreve roteiro. Nos Estados Unidos, a associação que defende os interesses dos roteiristas se chama “Writers’ Guild of America“. Não é “Screenwriters Guild“. E é assim por um motivo: nós somos escritores, nós somos criadores. Nada do que se vê nas telas existiria se nós não escrevêssemos. Todos os empregos do audiovisual surgem a partir do que a gente escreve e, no entanto temos menos prestígio que o diretor de fotografia, por exemplo. E não temos nossos direitos traduzidos em rendimentos e em reconhecimento.  Afirmar-se “escritor de cinema” significa contestar tudo isso.

Entre os projetos que a Mixer está desenvolvendo no momento, qual você pode destacar?

Eu estou envolvido em dois projetos, e muito empolgado com os dois. O primeiro, e mais meu, é a segunda temporada da A Garota da Moto (que criei com João Daniel Tikhomiroff). Está sendo um processo mais longo do que eu imaginava, pois trabalhei com a equipe, em sala, até o início deste ano e estou retomando todos os roteiros agora. Está sendo um processo muito especial porque é uma segunda temporada, já conheço os personagens na pele dos atores, o que faz toda a diferença, já vi como o público reage, é totalmente diferente de fazer uma primeira temporada. É mais desafiador e é também mais prazeroso.

O outro projeto é a série infantil Escola de Gênios. Foi criada pela Ângela Fabri, que me enviou o projeto, dois anos atrás. Vimos, aqui na Mixer, que era ótima e tivemos a sorte de conquistar o canal Gloob para o projeto. Atualmente, supervisiono o desenvolvimento dos roteiros, enquanto a Ângela chefia a sala. É o meu primeiro envolvimento com um infantil e está sendo muito especial.

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