O mercado de séries brasileiras tem crescido cada vez mais e com isso também cresce a demanda por roteiros de qualidade. Por isso, o desafio de criar projetos criativos, que unam a tradição e a inovação, nunca foi tão grande.

Pensando na importância dos novos profissionais capacitados para a consolidação do mercado de produção de obras seriadas brasileiras, o Seminário NETLABTV 2108, realizou, entre as diversas atividades que ocorreram no Unibes Cultural em abril, o debate “DIÁLOGOS GIGANTES: Os Desafios para a Formação de Novos Talentos do Roteiro”, que reuniu vários profissionais para discutir estas questões.

Para discutir o tema, foram convidados profissionais como Flávio Januário, da diretoria de Responsabilidade Social do Instituto NET Claro Embratel, David França Mendes, roteirista-chefe na Mixer, professor, diretor estratégico da ABRA e jurado do NETLABTV 2018; José Carvalho, roteirista e diretor da Roteiraria; Roberto Moreira, roteirista, produtor e professor do Curso de Cinema (ECA-USP); Patrício Vega, diretor do El Laboratorio De Guión de Buenos Aires; e Minom Pinho, produtora executiva da plataforma NETLABTV. A mediação do debate ficou a cargo do roteirista e professor Ricardo Tiezzi, da FAAP e da Roteiraria.

Flávio Januário destacou o grande desafio e a importância estratégica da nova categoria do NETLABTV, Social Video, que premiou quatro projetos pensados especialmente para plataformas online e desenvolvidos por estudantes. “Quero juntar mais um tipo de produção audiovisual e quero atuar também dentro das escolas onde o Instituto NET Claro Embratel atua; e dar oportunidade para quem está à margem”, declarou Januário. “Está na essência do Instituto fazer a conexão entre as pessoas para fazer educação melhor, cidadania melhor. Nossa missão é conectar as pessoas para um mundo melhor”, completou ele.

O papel da formação

Como mediador, Ricardo Tiezzi abriu a discussão propondo uma reflexão sobre o papel da formação no processo de se criar e oferecer narrativas de qualidade, que tenham força para chegar ao grande público. José Carvalho pontuou sobre o processo de formação do roteirista nos Estados Unidos, que, segundo o roteirista, atualmente representa 80% do mercado de televisão e cinema do mundo. “Quando eles criaram a indústria do entretenimento, em vez de se deslumbrar e se impressionar com as vanguardas, eles foram estudar o passado. Primeiro ponto de observação que serve de inspiração para nosso mercado”, aconselhou.

Essa visão atenta para o que foi já foi produzido ao longo da história do cinema e da TV, além do estudo aprofundado desse histórico, foi destacada como parte importante da formação de novos roteiristas no Brasil, para que se desenvolva algo de fato novo. “Há uma linguagem narrativa que precisa ser aprendida e que foi sistematizada durante os anos 30, 40, 50 nos Estados Unidos. Como se fosse na música, tem que estudar Schubert, Mozart e depois inovar”, completou o roteirista David França Mendes.

União com as universidades

Outro ponto importante levantado pelo diretor da Roteiraria, José Carvalho, foi a forma como, em Hollywood, os profissionais do audiovisual criaram processos rápidos e eficientes para jovens talentos que escrevem para o audiovisual. Esta etapa da profissionalização do mercado norte-americano pode ser conferida com mais detalhes no livro Framework: A History of Screenwriting in the American Film, de Tom Stempel.

Carvalho explicou que, com o surgimento da TV, o mercado se viu carente de mão de obra de qualidade e a única alternativa foi uma aliança com o mundo acadêmico. “Os programas das grandes universidades se voltaram para uma formação na escrita audiovisual e, dali pra frente, as grandes universidades americanas passaram a dar uma formação qualificada”, contou.

Segundo o roteirista, no Brasil, isso não acontece com a mesma qualificação. “A gente cria muito mais críticos ao mercado do que profissionais do mercado. O nosso investimento hoje pela Roteiraria é para que a gente possa fazer aproximação entre talento e mercado”, explicou Carvalho, apoiado por Roberto Moreira: “Temos uma demanda brutal de produção e não temos profissionais qualificados para atender essa demanda. Temos muitos profissionais bons, mas não para atender o crescimento vertiginoso que veio com a Lei da TV Paga.”

Carência de Cursos de Formação

Moreira mencionou a carência de cursos de escrita criativa e citou o exemplo da ECA (Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo), onde dá aula de cinema desde 1999. No Brasil, os poucos cursos que existem surgiram em média nos últimos cinco anos. “Nos Estados Unidos, eles dão muita importância para isso. Lá todos os alunos de todas as disciplinas têm que fazer um curso de argumentação no primeiro ano da universidade. Eles levam muito em consideração a capacidade de expressão verbal. Não é o que acontece no Brasil e nos cursos de Artes e de Letras”, explicou.

Esses e outros exemplos só reforçam a carência de cursos de formação que preparem de fato os profissionais e os qualifiquem como o mercado espera e exige. É pensando nessa urgência que David França Mendes desenvolve sempre cursos e grupos de estudo, para falar e discutir o que tem faltado nos projetos. “Na Mixer eu recebo muitos projetos e a maioria não presta. Nesse curso, a maioria das pessoas conclui que não tem um projeto ou que aquilo não é o que elas estão buscando. E isso é ótimo”, conclui o professor de roteiro, que é também roteirista-chefe da produtora Mixer.

Exemplo argentino

Olhando para uma realidade mais próxima a do Brasil, está a Argentina. Segundo o roteirista Patricio Vega, o país possui um elo desgastado entre os roteiristas e produtoras. Para ele, é difícil pensar no desenvolvimento qualificado de um roteirista e, consequentemente, de um bom roteiro. Isso porque, muitas vezes, as produtoras argentinas se preocupam mais em financiar as histórias do que em encontrar roteiristas com potencial para desenvolvê-las.

Patricio comentou que sobra pouco tempo para se pensar de fato cada projeto e cada história e, por isso, os profissionais que atuam acabam sendo sempre os mesmos, pois já estão habituados com o ritmo. “Este processo tira do mercado outros profissionais com menos experiências, que podem até ser mais criativos, mas precisariam de mais tempo para desenvolver o projeto”, explicou.

Sala de Roteiristas

Este ciclo imperfeito em torno da criação e desenvolvimento de roteiros no Brasil se torna ainda mais evidente quando se reúnem vários roteiristas em uma Sala de Roteiristas. “O que mais me preocupa hoje em dia é a formação de quem já deu o primeiro passo. Isso porque ninguém ajuda no segundo passo. São bons roteiristas mas todos têm questões a ser melhoradas, é como uma correção de postura. Essa é a grande questão da Sala de Roteiristas. Ela expõe essa dificuldade que a gente tem, essa irregularidade”, relatou David, que tenta, por conta própria, reunir grupos e promover essa evolução que gostaria de ver no mercado, como um todo.

Desde que o NETLABTV foi idealizado, o pensamento sempre foi o de reforçar o processo de formação qualificada do roteirista no Brasil. “Quando a gente pensou esse laboratório, a gente queria criar um sistema onde um conjunto de projetos com muita potência pudesse passar por encontros individuais em que cada trabalho receberia a devolutiva de consultores especializados, fora a parte de negociação sobre mercado”, declarou Minom Pinho, produtora executiva do Concurso e do Laboratório NETLABTV.

Durante o debate, também foi discutida a inserção do roteirista no mercado, quais as oportunidades que esses novos profissionais têm para apresentar seus trabalhos e a necessidade de as se pensar caminhos para viabilizar essa ponte, além também da discussão sobre a diversidade dentro de espaços e oportunidades como o NETLABTV. Para conferir o bate-papo completo, acesse o vídeo disponível na página do Instituto NET Claro Embratel, no Facebook.

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