“O personagem é a ferramenta mais importante da história. É a ferramenta mais difícil, mas é a mais importante, pois é partindo dela que se justifica qualquer desenvolvimento”, afirma o roteirista, professor e consultor Di Moretti. Por isso, é preciso que haja um trabalho dedicado e aprofundado em torno da criação e do desenvolvimento deste elemento essencial da narrativa de uma série, seja ela de ficção ou não ficção.

O blog Inspire-se conversou com os roteiristas Thiago Iacocca, pesquisador especializado no gênero documental, Leo Garcia, diretor-geral do FRAPA (Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre)  e Di Moretti sobre o processo de desenvolvimento do personagem e o valor da pesquisa. E todos concordam: sem um personagem bem estruturado e desenvolvido, a história não consegue se sustentar sozinha.

Iacocca destaca também que o mercado audiovisual passa por um importante momento, em que finalmente se “despertou para a importância do investimento no desenvolvimento dos projetos e para a valorização da etapa de pesquisa de campo e de personagens na não-ficção”.

Nesta edição do Elementos do Projeto de Série, analisamos, portanto, a relevância do Personagem. Di Moretti e Leo Garcia falam do elemento em formatos de ficção e Thiago Iacocca analisa sua importância também para a não-ficção. Confira:

PERSONAGEM: Quem vive, sofre e executa a ação dramática.

Não- Ficção

Thiago Iacocca – Roteirista e pesquisador especializado no gênero documental,  fundador do  NOI #DOC (www.noidoc.com), núcleo criativo independente especializado no desenvolvimento de documentários

Personagem no documentário: a base do roteiro

Para encontrar um bom personagem é preciso entender a essência do projeto em que se está envolvido. Compreendendo as particularidades e demandas trazidas pela pesquisa conceitual do tema e os objetivos da direção, recorre-se às iniciativas básicas que envolvem o trabalho de pesquisa de personagens: identificar os perfis desejados e as fontes relacionadas a esses perfis. É um trabalho investigativo. O acaso é fundamental nesse processo, claro, mas não se pode negociar com ele. Esse conteúdo será a base da formatação do roteiro, incluindo eventuais ações documentais que ajudem na comunhão entre tema e personagem, além da pauta das entrevistas.

Bom momento no mercado: a valorização da pesquisa

No Brasil, estamos em um momento interessante: o mercado audiovisual finalmente amadureceu e despertou para a importância do investimento no desenvolvimento dos projetos. Se antes havia uma certa negligência à fase de pesquisa de campo e de personagens na não ficção, hoje é possível observar um movimento de valorização dessa etapa tão determinante à qualidade e profundidade do conteúdo. E são inúmeros os benefícios desse investimento, principalmente se levarmos em conta o caráter essencial de um bom personagem para se contar uma história. É o potencial surpreendente de um personagem identificado na pesquisa que garante que um documentário não fique refém exclusivamente do acaso.

Ficção

Di Moretti – roteirista, professor e consultor

Sem um personagem bem construído, a história não se sustenta.

Essa discussão de personagem é bastante atual. As histórias nascem dos personagens, e não das pequenas tramas. O personagem é a ferramenta mais importante da história, por isso é preciso se dedicar muito no processo de pesquisa de quem é esse personagem: como ele anda, como ele age e fala, o que ele pensa, quais são as suas motivações.

Dá para perceber claramente que uma história com personagem fraco não vai muito em frente.

É preciso traçar basicamente o perfil psicológico e o perfil físico; e as duas coisas precisam dialogar. O perfil físico é uma demanda de procurar um personagem que,  falando em questão de biotipo, seja compatível com as suas ações. O perfil psicológico é a dimensão mais profunda e precisa dar todo o lastro de memória do personagem, para que ele justifique as ações e que elas sejam coerentes com o personagem que eu fiz nascer.

É importante também que você nunca traia o público com algum fato ou ato do personagem que não seja crível: a credibilidade é uma função básica para a construção do personagem.

É a ferramenta mais difícil, mas é a mais importante, pois é partindo dela que se justifica qualquer desenvolvimento.

Leo Garcia – roteirista, sócio da produtora de roteiros Coelho Voador e diretor-geral do FRAPA (Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre)

Perfil do personagem

Para criar o personagem, você vai ter que inventar uma pessoa que, a série dando certo, vai te acompanhar por muitos anos. Tem que ser uma pessoa incrível. Se não for, não vai se sustentar. E incrível não é necessariamente uma pessoa “boazinha”, como foi o caso dos personagens da Família Soprano ou do Walter White, em Breaking Bad. Não gosto de considerar regras para criar um personagem, mas existem ferramentas para isso. É importante sentar em uma sala de roteiro, por exemplo, e ficar pensando e refletindo sobre o personagem, mas sem ficar adjetivando muito. Isso varia bastante. Tem gente que escreve a história de vida toda do personagem, desde que ele era bebê. Eu não costumo fazer isso. Mas se isso for importante para o seu personagem, se for ajudar na história ou, ainda, se isso for te ajudar na criação dele, então faça.

Tentativa versus erro

O ofício do roteirista tem um pouco de tentativa e erro. A gente pode começar a desenvolver o personagem em uma sala e ele parecer incrível. E quando você tenta colocá-lo na história, o personagem não encontra voz, não encaixa. É então que, você tem que recuar e pensar se ele precisa realmente existir. Pensar na função dele, no porquê de estar ali. Essa é uma habilidade que a gente também acaba ganhando com o tempo.

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