Beats. Beat by Beat. BS2. Beat Sheet.  Termos e dúvidas não faltam quando o assunto é a definição, o uso e a importância dos Beats e da Beat Sheet.

Há quem prefira a Escaleta e até mesmo usá-la como a tradução em português para o termo em inglês. Mas não só o conceito de cada elemento traz diferenças como também a forma de aplicação. “Resolvi, por conta própria, inventar a minha. Para diferenciar do que todo mundo entende por escaleta que é a estrutura do roteiro já definida em cenas, eu traduzi o Beat Sheet como Escaleta Dramática, que é a estrutura inteira do roteiro, mas seguindo apenas os pontos fortes da trama, não entram detalhes”, comenta David França Mendes.

A definição do roteirista, que é jurado na Categoria Ficção do NETLABTV 2017, vai ao encontro do conceito proposto por Robert McKee no livro Story, uma das maiores referências sobre criação de roteiros: “Dentro da cena, o menor elemento da estrutura é o Beat. […] Um Beat é uma mudança de comportamento que ocorre por ação e reação. Beat a Beat, esse comportamento em transformação molda o ponto de virada da cena”.

Para Philippe Barcinski, roteirista, diretor e um dos criadores do NETLABTV, por Beat poderíamos utilizar a palavra Pulso. “Em dramaturgia, o pulso, seria quando acontece algo significativo”, diz ele.

Neste sentido, Barcinski observa: “O movimento de se abandonar um pouco a escaleta e se usar a Beat Sheet é uma abordagem mais moderna de uma dramaturgia que exige uma coesão e uma agilidade maior.”

Quem, depois de McKee, tornou o Beat e a Beat Sheet (a folha, ou a sequência de beats que devem constar em todo bom roteiro), foi Blake Snyder, autor de Save the Cat – The last book on Screenwriting You’ll Ever Need (Save o Gato – O Último Livro sobre Roteiros do qual Você Vai Precisar, em tradução livre).

O livro também se tornou referência e trouxe a noção de que o roteiro não precisa necessariamente ter uma estrutura narrativa baseada na elaboração de um argumento e, depois, da escaleta. Mas sim que pode ser construída também com base nos Beats e tornar mais prático processo de construção de uma narrativa. Neste sentido, a Beat Sheet é uma sequência (ou outline) que lista os principais beats/ pulsos/ unidades narrativas de um roteiro.

O assunto pode parecer complexo, mas sua função é facilitar e auxiliar os autores a contar histórias com coesão.

Nesta edição de Elementos do Projeto de Roteiro, o blog Inspire-se aborda, portanto, os Beats e a Beat Sheet. Para isso, conversou com a roteirista e diretora Carolina Rodrigues, o roteirista e jurado na Categoria Ficção do NETLABTV 2017 David França Mendes e o diretor, roteirista, produtor e professor Philippe Barcinski.

Confira:

CAROLINA RODRIGUES – ROTEIRISTA E DIRETORA

Beat sheet é uma escaleta simplificada e pode ser usada como uma etapa anterior à escaleta pelas roteiristas mais metódicas.
Pode ser escrita em qualquer editor de texto porque é uma lista simples na qual você enumera em forma de tópicos cada um dos eventos que vão ocorrer na narrativa. São descrições muito breves, restritas a uma ou duas frases.
Mesmo que você não esteja escrevendo um roteiro com narrativa clássica, tanto a Beat Sheet quanto a escaleta, são ótimas ferramentas para que você não se perca no caminho que está desenvolvendo e consiga manter a essência e a força da narrativa que você quer contar.

PHILIPPE BARCINSKI – DIRETOR E ROTEIRISTA

O primeiro livro que me marcou muito e serviu de referência por mais de uma década foi o Manual do Roteiro (Screenplay: The Foundations of Screenwriting)
de Syd Field. Tenho quase certeza que ele não cita a palavra Beat na obra. Já o Robert McKee, de Story, fala muito de Beat no livro. O McKee é o novo Syd Field. Story, além de ser o novo grande livro de referência, é mais atual e mais aberto.

Comecei a ouvir falar de Beats quando entrei para o projeto Que Monstro te Mordeu e passei a trabalhar com uma geração mais jovem de roteiristas, que usavam muito os Beats. Para mim, Beat é uma palavra muito genérica, que se presta a muitas coisas. O principal quando se pensa em uma forma de traduzi-lo seria usar a palavra Pulso.
Em dramaturgia, o pulso, seria quando acontece algo significativo.

ESCALETA X BEAT SHEET

Quando se trabalha a escaleta tradicional, a gente começa a escrever a história em formato de argumento, que é uma prosa contínua. A partir de um ponto, ao escrever esta prosa, começa-se a ficar com um texto muito grande. É aí que está quase pronto para virar um roteiro, mas ainda é prosa contínua. O que se faz então? Dividem-se os ambientes. A gente pega o próprio argumento que foi crescendo, que já está com 25/30 páginas e está tão parrudo que já pode ganhar um cabeçalho. Aí vem o: “ INTERIOR / CASA – DIA”. Simplesmente a gente fatia o argumento inserindo cabeçalhos. E cada vez mais vai ficando com cara de roteiro. E assim o projeto vai ganhando corpo até que a gente já pode incluir os diálogos. Assim, a narrativa que estava dividida em cenas ganha rubricas e diálogos. Este é o fluxo normal de trabalho do roteirista.

Já a abordagem que usa Beats não parte da prosa contínua porque mais importante da história que se está contando são os acontecimentos, os pontos que fazem a história pulsar. Assim, deixa-se de partir pela espacialidade e pelo ambiente.
Apesar deste processo que descrevi ser muito fluido, de fato se a gente se atentar ao que está acontecendo, se um cara deu um tapa no outro, brigou, se foi na cozinha, no carro é muito menos relevante do que se ele brigou antes ou depois de fazer amor. Sendo assim, passa a haver uma forma de encarar o roteiro que está muito mais ligada aos acontecimentos do que em algo mais mecânico.

O movimento de se abandonar um pouco a escaleta e se usar a Beat Sheet, é uma abordagem mais moderna de uma dramaturgia que exige uma coesão e uma agilidade maior. Enquanto se é um narrador que conta uma história mais prosaica, tudo bem não se preocupar tanto com a condução do espectador.

BEAT SHEET E MERCADO

O Walter Murch em Num Piscar de Olhos diz que montar um filme é como levar uma bacia cheia d’água atravessando uma sala inteira sem poder deixar pingar nada.
Hoje em dia há uma preocupação da dramaturgia ser muito assim.

E este modelo tem muito a ver com a preocupação das TVs, criadores e produtores em manter o ritmo e não deixar a peteca cair em nenhum momento. Este cuidado é muito grande atualmente, para que se mantenha o interesse do espectador.

No circuito de arte, o espectador pode flanar pelo filme, viajar, voltar para a ação. Na TV, com o grau de competição atual, a ideia é que o espectador tem que ser grab by the neck (pegar pelo pescoço), como dizem os americanos. Na minha visão, de certa forma, é isso que está por trás do fato que sistematicamente o processo de criação passe pela diminuição da importância da escaleta como corte de uma história; e o foco maior na Beat Sheet, que é mais eficiente para se narrar histórias com muita coesão.

Este processo ainda é novo. E a passagem do Syd Field para o Robert McKee marca esta mudança. As gerações mais novas estão muito atentas a isso e o futuro da dramaturgia, pelo grau de competição no audiovisual, não só por telespectadores mas também com os smart phones, a tendência das séries é tentar fazer com que a pessoa não desvie o olhar. É acontecimento atrás de acontecimento. Então, Beat Sheet é mais eficiente no gerencialmente disso.

DAVID FRANÇA MENDES – roteirista e jurado na Categoria Ficção do NETLABTV 2017

Beat Sheet é um daqueles termos que não se encontrou e que não se usa uma tradução certa. Cada hora vejo uma. Então eu resolvi, por conta própria, inventar a minha. Para diferenciar do que todo mundo entende por escaleta que é a estrutura do roteiro já definida em cenas, eu traduzi o Beat Sheet como Escaleta Dramática, que é a estrutura inteira do roteiro, mas seguindo apenas os pontos fortes da trama, não entram detalhes. Por exemplo, um item pode ser a cena do assalto que dá errado. Na hora de chegar na escaleta, esse mesmo ponto se subdivide em cenas, com detalhes do que está acontecendo em cada momento.

Estruturar o roteiro nesses termos, com as ações dramáticas realmente importantes e não se perder nos detalhes é talvez a habilidade mais importante que um roteirista precisa ter e aquela mais difícil de se encontrar. As pessoas não sabem estruturar o roteiro sem enxergar os detalhes. Então elas partem direto para uma escaleta, que inclui mil detalhamentos.

Uma Beat Sheet é uma estrutura só com o que é o fluxo limpo da história, uma coisa que leva a outra. Pouca gente sabe fazer isso direito. Isso é a grande coisa pra se aprender e fazer.

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