Sua definição varia de acordo com perspectivas de estudiosos, roteiristas, críticos e produtores, mas o fato é que, de forma geral, o Dispositivo funciona como um elemento que não só auxilia na construção do roteiro e da história a ser contada, como pode até mesmo desencadear fatos que farão parte da narrativa.

“Dispositivo é um termo chique para o que a gente usa para transformar histórias reais em experiências dramatúrgicas para o público. Se seu dispositivo for bom, você terá audiência”, comenta Krishna Mahon, Diretora de Conteúdo do The History Channel, A&E, Lifetime e H2 no Brasil, e idealizadora do canal Imprensa Mahon, no YouTube.

Já o roteirista Thiago Iacocca observa que um bom dispositivo muitas vezes não é facilmente identificável pelo público. “O dispositivo normalmente é um elemento que o documentarista usa como uma âncora simbólica, mas não se está preso a ele. Você faz uso dele para falar do assunto que quer”, comenta ele, que também é  pesquisador especializado no gênero documental.

Termo e recurso em geral utilizado quando se trata de roteiros de formatos de não-ficção, o Dispositivo pode ser aplicado de diversas formas nos mais diferentes projetos. “É um (ou mais de um) elemento narrativo estruturante do storytelling do programa ou série. No caso de um documentário, é o elemento que dá coesão e até arco dramatúrgico para o filme. Nas séries, é o que dá liga, é o elemento comum que faz com que seus episódios pertençam efetivamente estruturalmente à mesma unidade”, explica Krishna.

Julia Priolli, roteirista e gerente de conteúdo original da Fox, aponta que, no caso dos projetos de ficção, em vez de Dispositivo, falar em Premissa é mais adequado. “A série tem que ter universo, motor e personagem, obviamente. Então, algumas premissas podem ser baseadas no universo, outras baseadas no personagem”, explica Julia.

Para Thiago, a definição e as diversas utilizações do Dispositivo rendem uma longa discussão, que merece exemplos e novas formas de abordagem. Sobre isso, ele, Krishna e Julia falaram mais ao blog Inspire-se. Confira:

Thiago Iacocca – Roteirista e pesquisador especializado no gênero documental,  fundador do  NOI #DOC (www.noidoc.com), núcleo criativo independente especializado no desenvolvimento de documentários

Dispositivo: um fio condutor da história

O dispositivo é um elemento que ajuda a diferenciar o documentário do jornalismo, em uma primeira instância. Isso significa que quando se sai do campo objetivo do jornalismo, do factual – em que se vai em busca de uma notícia específica e não se pode inventar muito em cima daquele tema, pode-se até ser criativo jornalisticamente falando, um pouco ousado, mas acaba-se preso a algum fato -, o dispositivo abre um campo novo de trabalho onde é possível investir na subjetividade. Até porque um bom dispositivo muitas vezes não é facilmente identificável pelo público. O público não percebe que esse dispositivo está lá. E acho que esse é o grande barato desse elemento narrativo que é próprio do documentário.

Um exemplo bom é ”O retrato de Classe”, do Gregório Bacic, em que ele usa uma fotografia de uma escola de 1975, em 1977. Ele vai atrás de todos aqueles alunos, faz um encontro e promove uma grande interlocução entre o passado e o presente. Tem uma professora que vai falando sobre a expectativa que ela tinha de cada aluno. E o espectador vai vendo na realidade o que eles se tornaram. E essa fotografia está em toda narrativa: você vê a pessoa na foto, quando era criança, e a vê 22 anos depois, adulta, em vídeo, em ação.

O dispositivo normalmente é um elemento que o documentarista usa como uma âncora simbólica, mas não se está preso a ele. Você faz uso dele para falar do assunto que quer. No caso de “Retrato de Classe”, é falar da classe média paulistana. Aquela fotografia serve como um dispositivo para levar o espectador até aquele lugar, porque a foto tem uma carga dramática. Escolher um dispositivo narrativo no documentário é fundamental, mas todo mundo tem que saber que é um desafio e uma boa discussão. E muitas vezes demora, mas faz parte do processo e é bom que faça, e bom também que isso não esteja tão claro sempre.

Você pode usar dispositivos como arquivos. O Adam Curtis, da BBC de Londres, por exemplo, faz filmes inteiros usando arquivos da BBC. E insere o voice over dele, narrando histórias, e assim vai amarrando os arquivos. Além disso, traz entrevistas atuais com outras pessoas quando necessário. Ele produz muito. Então, usa o arquivo da BBC como dispositivo para interpretar o presente.

Esta é uma longa discussão. O dispositivo pode também ser uma pauta. Por exemplo, pode-se fazer as mesmas perguntas para 20 pessoas diferentes ao redor do mundo. Essa pauta é um dispositivo de conteúdo. Dispositivo também pode ser uma transformação pessoal. Por exemplo, as séries em que o personagem principal/apresentador tem uma missão.  Neste caso, talvez no doc reality isso se enquadraria mais.

Krishna Mahon – Diretora de Conteúdo do The History Channel, A&E, Lifetime e H2 no Brasil, e idealizadora do canal Imprensa Mahon, no YouTube

É um (ou mais de um) elemento narrativo estruturante do storytelling do programa ou série. No caso de um documentário, é o elemento que dá coesão e até arco dramatúrgico para o filme. Nas séries, é o que dá liga, é o elemento comum que faz com que seus episódios pertençam efetivamente estruturalmente à mesma unidade. É o ziriguidum, o je ne sais quoi do documentário ou série.

Aqui alguns exemplos:

Arquivo
Um dispositivo muito comum é o material de arquivo. Todo mundo usa e quase sempre está lá, mas algumas obras usam de forma diferente. “8 Days A Week” revela um lado novo dos Beatles, além de ser feito quase 100% com arquivos, verdadeiros tesouros.
“Pacific” é um documentário brasileiro disponível no YouTube. Hilário, é feito inteirinho com arquivo das próprias pessoas que viajavam num cruzeiro Classe C.

Ponto de vista

Louis Theroux, Michael Moore e todos dessa linha de documentaristas partem do seu ponto de vista, suas crenças e valores para mostrar algo. Isso é muito mais antigo do que a gente imagina.

Transformação
“Super Size Me” é o exemplo mais claro disso e todos os programas de reality usam o mesmo dispositivo.

Desafio
Cada episódio o apresentador, ou participante, tem de sobreviver, provar, conseguir algo em uma estrutura de três atos.

Reencenação / Docu-drama

Esse tem exemplos tão variados, mas “Valsa com Bashir” (doc animação divino) e todas as séries com reencenação estão de mãos dadas aqui.

Como a não-ficção existe na intersecção da narrativa dramatúrgica com o real, o que difere tal programação da programação jornalística são os dispositivos usados para dramatizar a realidade. Dispositivo é um termo chique para o que a gente usa para transformar histórias reais em experiências dramatúrgicas para o público. Se seu dispositivo for bom, você terá audiência.

Julia Priolli – roteirista e gerente de conteúdo original da Fox

Como as séries de ficção têm uma outra lógica, porque há a questão do mecanismo por repetição, não costumo trabalhar com o termo Dispositivo. Neste caso, falar em Premissa é mais adequado. A série tem que ter universo, motor e personagem, obviamente. Então, algumas premissas podem ser baseadas no universo, outras baseadas no personagem.

Por exemplo, em “The Handmaid’s Tale”, a premissa é um conflito universo da série. A gente pode chamar de dispositivo o que eu vou chamar de premissa aqui, que é: o mundo ficou infértil e houve um golpe de extrema direita fundamentalista e religioso que transformou a fertilidade em commodity.

No exemplo do documentário 33, de Kiko Goifman,  ele tem 33 dias para resolver uma questão. O roteirista pode criar uma premissa baseada em motor, premissa baseada em personagem e premissa baseada em universo. Uma premissa baseada em personagem é super fácil de entender. Motor é um pouco mais complicada, mas podemos dizer que as séries de premissas baseadas em motor são todas as comédias assemble, como “Seinfeld” e “Friends”. Nesse caso, a premissa é: aquelas pessoas têm que ser amigas para sempre e não podem se separar. E é por isso que a Rachel não pode casar com o Ross, senão eles deixam de ser uma turma de amigos. Isso também é a premissa.

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