“O Plot é a escolha que o autor faz dos eventos e dos momentos em que eles ocorrem”, comenta Robert McKee, autor do já clássico Story – Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita de Roteiro.
A afirmação de McKee, uma das maiores autoridades do mundo quando o assunto é criar histórias e, principalmente, roteiros, é uma entre tantas que autores, roteiristas e escritores já elaboraram sobre o essencial Plot. E se as definições são muitas, as interpretações e uso são mais diversas ainda.
Do Plot que caracteriza a narrativa clássica, ou o roteiro Plot Driven, à narrativa que valoriza mais o personagem, ou a Character Driven, passando pelas subversões da forma tradicional e chegando à criação de histórias com Plot Rarefeito e/ou Plot Fragmentado, as opções são muitas e o aprendizado é longo.
Para o roteirista Léo Garcia, plot é também a trama e são as ações que movem a história. “Em séries de comédia, por exemplo, provavelmente você vai trabalhar com duas ou três tramas por episódio. Na série dramática, pode ter um Plot por episódio. É questão de saber identificar o Plot importante, na hora de conceber uma trama. Entender o que funciona melhor na sua série”, comenta ele.

Nesta edição do Elementos do Projeto de Série, o blog Inspire investiga o Plot e, para isso, ouviu também a diretora e roteirista Carolina Rodrigues, o roteirista e escritor Ricardo Tiezzi e a roteirista Patrícia Leme.

Confira:
PLOT: Tema ou conflito que deu início a uma história.

PATRÍCIA LEME – ROTEIRISTA
Podemos pensar o Plot como uma planta baixa onde organizamos o que acontece, como acontece e em que ordem acontece.
É importante definir se você vai contar sua história como um Arch Plot, a narrativa clássica, um Multi-Plot ou um Antiplot. Outra escolha que você precisa fazer é entre Plot Driven e Character Driven. Nas histórias com maior presença do Character Driven, você verticaliza os personagens. Sendo assim, acompanhar o que eles sentem, sofrem, vivem, é mais importante do que o desenvolvimento do Plot. Enfim, essas escolhas sobre o Plot trarão consequências na forma que você vai desenvolver o seu filme ou a sua série.

CAROLINA RODRIGUES – DIRETORA E ROTEIRISTA
Plot é a trama. E Plot tem a ver com arco dramático e com o fato de se definir quem é o personagem principal, de onde ele parte e para onde ele vai e qual é a ação que o norteia para chegar do Ponto A ao Ponto B. Exemplo: João descobre que Mariana não é sua irmã ao vasculhar o porão da casa de sua mãe. Isso é uma trama possível. É um Plot, uma trama básica que é o motor da história.

O Plot Character Driven, ou guiado em função do personagem
Hoje a gente vive uma fase muito ‘Character Driven’, ou seja, que se guia muito pelo personagem. Às vezes a trama em si não é o mais importante. No sentido de se pensar em um episódio que não necessariamente seja ‘sobre a trama’. Um exemplo disso é o ‘Episódio da mosca’ em Breaking Bad. Qual é o Plot dele? É: Walter White não consegue se concentrar na sua produção de meta-anfetamina porque uma mosca o atrapalha.
Este é um episódio definitivamente Character Driven, em que a trama não é o mais importante, mas sim revelar o caráter do personagem. É preciso criar empatia com o público.

Um bom Plot precisa de bons personagens
Walking Dead, por exemplo, é uma série em que o Plot é muito importante, mas se não fosse sobre personagens que enlouquecem em uma situação limite, o espectador não teria nenhuma ligação com eles e nada da trama faria sentido. Personagem, para mim, é o elemento mais importante da história. Se não houver um personagem contraditório, humano, que a gente admire e odeie ao mesmo tempo, que você enxergue nele você mesmo e os outros, é muito difícil levar uma série para frente. Plot é crucial, mas sem grandes personagens ele não se sustenta.
Sou também espectadora e fanática por séries, minha vontade de escrever tem muito a ver com a de criar histórias que eu também gostaria de assistir. E que eu consiga conversar com o público sobre as histórias.
Fiz um curta sobre o aborto (A Boneca e o Silêncio, 2015). Mas não era sobre o aborto e sim sobre a solidão de se tomar esta decisão. E o curta só fez sentido quando as pessoas começaram a assisti-lo e a me dizer que se viram na personagem, que sentiram o que ela sentiu e que podiam falar sobre aquilo. E não se sentiam mais sozinhas, sentiam que não eram clandestinas, criminosas. Elas eram sujeitos e não culpadas. E quando se cria um personagem capaz de fazer com que o público se engaje no processo, ele ganha humanidade.
Não estamos mais no momento dos grandes heróis. Mas por que heróis continuam fazendo sucesso? Entre outras coisas, é porque hoje eles têm humanidade.
X-Men, por exemplo, é sobre assumir-se ou não mutante. Mas no fundo é sobre identidade. E isso é universal. E é forte e poderoso descobrir quem se é no mundo, com ou sem superpoderes.

RICARDO TIEZZI – ROTEIRISTA E ESCRITOR

Plot na acepção básica é enredo, intriga. Na narrativa audiovisual, significa que o protagonista é orientado para alguma finalidade. Ele quer alguma coisa e vai encontrar obstáculo para atingir esse querer. E é um obstáculo que proporcional a essa vontade. Essa é a acepção mais simples do Plot.

A origem disso está na Arte Poética de Aristóteles. E em uma das frases desta obra, parece que um homem sábio como Aristóteles está fazendo uma afirmação tola, quando ele afirma que a tragédia tem que ter o começo, meio e final. Parece uma absoluta bobagem vista com os olhos de hoje. Só que na época a tragédia estava inventando a forma dramática e tudo que existia era o épico e o lírico.

O Épico, O Lírico e o Drama

O Lírico não tem tempo, porque ele é o tempo subjetivo da alma do poeta. Você não consegue medir um tempo no poema lírico. E o Épico era uma história que se começava a contar no início dos tempos e ia sendo recontada para sempre. As histórias épicas não têm medida, não têm início e fim. Elas podem receber adições, subtrações, subversões ao longo do tempo.
No Drama, na tragédia dramática, o personagem é orientado para alguma coisa; em grego isso se chama Telos – finalidade. Exemplo: Antígona quer enterrar o irmão. Então, a peça começa quando ela tem essa tarefa em mãos e termina quando ela consegue, ou não, executar essa tarefa. O drama passa a ser apertado nessa cápsula que é a Unidade. Tudo que se relaciona com esse conflito participa do drama. Tudo que, se subtraído, não faz a menor diferença para a finalidade, para o conflito central, não participa do drama. Isso dá o senso de unidade, que é construído com esse ponto de chegada e o durante todo se relaciona com esse querer.

Clube de Compras Dallas
Clube de Compras Dallas, por exemplo: o personagem quer prorrogar a vida e quer os remédios que estão sendo testados e que não foram aprovados ainda pelo órgão responsável nos Estados Unidos. E todo o drama vai se desenrolar pela necessidade dele de se conseguir esses remédios, de prolongar a vida dele e da comunidade de contaminados.

A Clarice Starling, em O Silêncio dos Inocentes, quer capturar um serial killer, mas tem um canibal no meio do caminho e ela precisa entender e superar esse cara, para chegar lá. Ela é orientada por um Telos, por um fim. E o Plot, portanto, se organiza em torno de um objetivo, do obstáculo para se alcançá-lo e do fato de que tudo que vai entrar no drama, na narrativa, está devedor dessa estrutura e de tudo que está dentro dessa cápsula.

O Plot como pretexto e truque de mágica
Existem filmes que sobrevivem só de Plot: existe um objetivo externo a ser alcançado e o personagem corre atrás do seu objetivo. No entanto, em geral, a narrativa mais canônica (vamos dizer assim) trabalha da seguinte maneira: o Plot é uma espécie de pretexto e truque de mágica.
Na verdade, o que está em jogo no caso do Clube de Compras Dallas é que aquele personagem vai ter sua homofobia desafiada. Ele tem um problema de caráter, que é a homofobia, e, ao percorrer o Plot, ao tentar atingir o objetivo, ele vai ter esse caráter desafiado, transformado e, no caso específico desse filme e de muitos outros, melhorado.
Então o Plot existe para carregar um caráter ou uma personalidade em transformação.
O truque de mágica é que o Plot estabelece uma aventura do dia para o público se vincular a essa aventura: vai ou não conseguir pegar o assassino; a Miss Sunshine vai ou não ganhar o concurso de miss; fulano vai ou não conseguir um emprego; o casal vai ou não ficar junto?

O jogo entre Plot Driven e Character Driven

O Plot seduz o público para que as personalidades se transformem, para que a homofobia melhore, uma vaidade seja corrigida, para que alguma falha seja trabalhada.
O drama é ação, é cênico. Você precisa de matéria cênica para contar a intimidade. O Plot serve pra isso: ele é a ação que carrega uma transformação de caráter, basicamente é esse o jogo entre Plot-driven e Character-driven.
O plot serve para carregar o caráter e engajar o público em uma tarefa ou aventura, e essa aventura transforma o personagem.

Variações do Plot
Muitas formas de narrar foram se estabelecendo a partir disso que chamei de canônico. Isso que falei não é uma fórmula ou uma regra inviolável, esse é um tipo de narrativa muito hegemônico e muito presente.
Pode acontecer com o Plot, e ao longo do percurso aconteceram, muitas subversões. Por exemplo, você pode ter um personagem que não tem Telos, sem a finalidade. Em vez de o personagem se guiar em direção ao seu objetivo, simplesmente o objetivo é vago ou não existe e o personagem desliza pela narrativa de situação em situação.
Você pode fragmentar o Plot: em vez de contar desde o ponto inicial, quando aparece o problema, até o ponto final, quando ele resolvido ou não, você pode quebrar essa estrutura linear em vários fragmentos que pedem para que o público reconstrua o Plot.
Outra operação possível: você pode rarefazer o Plot. Nesse caso ele não é tão importante, o conflito é um pouco tênue e você tem cenas que não são degraus em direção ao Telos. Simplesmente são cenas estáticas que procuram imitar mais o movimento da vida. Não se baseiam tanto nesse artifício do drama e nessa cápsula da unidade. O conflito é um pouco difuso, é suave e não é tão evidente como é no Plot tradicional.
O Plot é essa unidade, que é dada desde o nascimento grego e até hoje usada para contar histórias, evidentemente com as adaptações que cada época fez e a maneira como cada época leu Aristóteles para propósitos definidos. O Plot tem essa função de marcar um enredo, uma estrutura. Mas na verdade ele carrega um caráter/personagem em transformação. E ele pode receber em um roteiro vários tipos de subversões e leituras diferentes da tradição.

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