Um ambiente de colaboração em que roteiristas se reúnem regularmente, têm voz e participam ativamente dando ideias e desenvolvendo uma série. Atualmente, a maioria das séries brasileiras são desenvolvidas em uma Sala de Roteiristas.

Hana Vaisman considera a Sala um importante processo para a formação de um profissional, principalmente em TV. “É uma excelente escola para complementar suas habilidades ao ver como pensam e trabalham outras pessoas”, afirma a roteirista. Mesmo assim, Hana não considera a Sala sempre indispensável, pois certos criadores e formatos podem preferir escrever de acordo com outras dinâmicas. “Cada autor pode encontrar a melhor forma de trabalhar, para cada projeto”, completa.

Ainda assim, a importância da Sala de Roteiristas é indiscutível e consenso entre todos os profissionais de roteiro que consultamos. De acordo com a roteirista Patrícia Leme, “a Sala de Roteiristas só se torna realidade quando o projeto está de alguma forma financiado e entrou em desenvolvimento”. Por isso, o trabalho em dupla é uma dica para os profissionais que estão criando seu próprio projeto e querem viabilizá-lo. “Escolha alguém que seja comprometido, que tenha um método que se assemelhe ao seu e mãos à obra”, orienta Hana.

Para esta edição do Elementos do Projeto de Série, conversamos também com a roteirista Renata Martins, a diretora e roteirista Carol Rodrigues e o roteirista e diretor Phillipe Barcinski. Confira:

RENATA MARTINS –  DIRETORA E ROTEIRISTA

Sala de roteirista é um espaço onde autores, roteiristas, colaboradores e, às vezes, pesquisadores se encontram. Pode ser em uma sala alugada, na casa de alguém, no boteco ou via skype. É um lugar de troca, discussão, reflexão e muita defesa dos pontos de vistas. Eu diria que “algo indispensável” para um bom roteirista é se aprofundar no estudo das estruturas dramáticas e se relacionar com o mundo, com as pessoas, com os universos distintos e exercitar a escuta.

A sala potencializa essa escuta e é importante que ela seja diversa. Estar numa, sem dúvidas, auxilia na construção de bons roteiristas e, consequentemente, na construção de boas histórias.

 

CAROL RODRIGUES – DIRETORA E ROTEIRISTA

Depurador de ideias

A Sala de Roteiristas é um sistema de depuração de boas ideias. Acho maravilhoso. Você dá uma ideia e ela é péssima, acontece. Só que a outra pessoa vai ter uma ideia a partir da sua ideia, que vai ser um pouco melhor. E assim você consegue avançar cinco passos em um único dia. É o princípio de que você consegue desenvolver melhor em conjunto.  

Coisas que você sozinho em casa sentado olhando a página em branco até conseguiria fazer, mas demoraria dez dias. Na dala, você consegue em uma tarde avançar o que não funcionaria nestes dez dias.

No começo eu ficava um pouco ressabiada com a ideia de hierarquia na sala de roteiro, mas é preciso ter uma palavra final. Você precisar ter o Chefe de Sala, que é a pessoa que vai dizer o caminho por onde vamos continuar, depois de todas as ideias. Às vezes, na sua opinião, não vai ser o melhor, mas é a pessoa que dentro do contexto vai escolher melhor. Eu acho super instigante. É fisicamente exaustivo… você sente no seu corpo isso. É algo que as pessoas não pensam: criar exige esforço físico e fome (risos). Sem comida na sala de roteirista não dá.

A gente não falava disso na faculdade, era como algo muito distante, mas não pensava no funcionamento do cotidiano de trabalho. Deveria haaver mais editais de desenvolvimento que permitissem que um autor, para criar a série, pudesse pagar pessoas para montar uma Sala de Roteiro de desenvolvimento, partindo do zero, porque isso garante uma qualidade maior até para produção vindoura. 

Diversidade na Sala é indispensável

Quanto mais diferentes as pessoas da Sala, melhor. As diferenças fortalecem, ao contrário do que muitos pensam. A homogeneidade de visões só enfraquece a qualidade de uma série. Quanto mais diversas são as pessoas, mais humanidade, mais complexidade e mais camadas têm os personagens.

Quando trabalhei em uma Sala, uma das pessoas presentes era a produtora, o que achei bem positivo, porque ela já trazia algumas estipulações de mercado. Isso é bom. No momento inicial, é bom ser livre, mas também é importante pensar na produção e nas limitações financeiras que certas ideias de roteiro podem trazer.

HANA VAISMAN – ROTEIRISTA E JURADA DA CATEGORIA NÃO-FICÇÃO DO NETLABTV 2017

A Sala é um jeito de trabalhar em que um grupo de roteiristas (ao menos dois) se reúne para desenvolver a série e os episódios. Costuma ser um período imersivo, de várias horas por dia, vários dias por semana, para que se possa pensar profundamente sobre todos os aspectos da série e dos episódios. É importante, pois permite por as ideias à prova, verificar, de vários pontos de vista diferentes, se as soluções se sustentam ou não, e usar de maneira complementar as diferentes habilidades dos roteiristas. Um pode ser bom de trama, outro melhor para pensar os personagens, outro melhor para piadas.

Normalmente, na Sala não se escreve roteiro, mas se definem muitas coisas sobre os roteiros (normalmente até a etapa de Escaleta), que depois são divididos entre roteiristas da Sala para escrever separadamente. 

Acredito que a Sala seja muito importante para a formação de um roteirista principalmente em TV, em que se desenvolvem horas e horas de conteúdo, e o trabalho é feito em equipe. É uma excelente escola para complementar suas habilidades ao ver como pensam e trabalham outras pessoas. Particularmente, aprendi e aprendo muito em cada Sala que participo e recomendo a experiência ao menos uma vez na vida de um roteirista.  Mas não diria que é indispensável, porque há roteiristas excelentes que criam séries inteiras de outra forma. Cada autor pode encontrar a melhor forma de trabalhar, para cada projeto. 

PHILLPE BARCINSKI – DIRETOR E ROTEIRISTA

Diferente de cinema, que você tem uma dramaturgia coesa, que cabe bem na mente de uma pessoa, normalmente tem um tempo maior para escrever, o show de TV é uma coisa muito maior, suporta mais que a dramaturgia. É o conceito de um universo e quais são os personagens e suas trilhas. Normalmente o prazo para esscrever é curto para o volume de trabalho que uma série traz. E a quantidade de plot não cabe bem numa cabeça só.  A ideia é que é uma série é grande demais para uma pessoa.

Mas, se você colocar cinco cérebros em uma sala para interagirem, consegue ir mais longe.  Mas para isso eles precisam estar realmente conectados. O líder da Sala, que conduz as reuniões, tem que ter um papel muito forte, ele tem que conduzir para ir em uma direção.  Existem momentos de os caminhos continuarem e os momentos de cortar e dizer que não.

Vários depoimentos falam que a Sala ideal tem quadros brancos na parede, para trabalhar com fichas. Além disso, é muito comum ficar se discutindo o caminho mais natural, a aplicação do storydrive, a continuação de cada história. A partir destes processos, os caminhos dos personagens vão sendo fabulados, pois eles têm que evoluir ao longo dessa storydrive.

Depois que a equipe desenhou isso no papel, a jornada de cada personagem, como ele evoluiu, vira um jogo de “corta-corta” e realmente é possível escrever uma história. O que eu mais vejo acontecer em uma dinâmica de Sala de Roteiristas é se chegar e fazer a estrutura juntos, na Sala. O mais importante de haver um conjunto de cérebros pensando juntos é pensar a estrutura da série. As várias mentes são uma grande máquina calculadora de muitas camadas.

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