As definições são muitas, mas vale citar dois exemplos. O primeiro é do site especializado em mercado de roteiros Script Reader Pro e o segundo do site de orientação de carreiras The Balance:

SPEC: Um roteiro escrito ‘de modo especulativo’ que serve de vitrine para seu talento e pode ser usado como um cartão de visitas. (http://www.scriptreaderpro.com/ )

SPEC é a abreviação de Roteiro Especulativo. Tecnicamente diz respeito a algo que você escreve por especulação (às vezes definido como ‘escrito por SPEC’), o que significa, na verdade, que você escreveu o roteiro de graça. Você espera que no futuro possa vendê-lo ou ser contratado como roteirista por causa dele, mas para ter esta chance, sua única escolha foi escrever o tal roteiro. (www.thebalance.com/)

“O nome vem de “Speculation”, que seria um roteiro de especulação. O SPEC é uma ferramenta muito importante pra a indústria americana, que funciona bem diferente da brasileira. Nós ainda estamos a anos-luz deles, principalmente com relação ao trabalho do roteirista. Então, o SPEC lá tem diversas conotações”, disse ao blog Inspire-se o roteirista e sócio da produtora de roteiros Coelho Voador, Leo Garcia.

Apesar do SPEC ainda não tão comum no cenário brasileiro, cada vez mais se comenta sobre sua criação, utilidade tanto no mercado quanto nas escolas de roteiro. Foi pensando nisso que a roteirista Julia Priolli e o roteirista, script-doctor e diretor Aleksei Abib criaram um curso de SPEC, cuja primeira edição ocorrerá em breve no Centro Cultural B_arco. “Pensamos em fazer esse curso, que é sobre Piloto e SPEC, com o objetivo de que o aluno saia com um portfólio”,  explica Julia, que também é  gerente de conteúdo original da Fox.

Segundo ela, que estudou Television and Intensive Writing em Columbia University – Nova York, em 2012, normalmente o SPEC é a primeira exigência de mercado para quem quer se tornar um roteirista profissional nos Estados Unidos. “Quando você entra no mercado, tem de contratar um agente. E ele vai te pedir três coisas: um piloto original, um SPEC e um conto ou poema, alguma produção que mostre sua capacidade de criativa e de escrita”, explica ela.

Para a roteirista Paula Knudsen, o SPEC tem de fato um valor importante para o aprendizado. “Ele ajuda o roteirista a treinar, dentro de um universo que já tem personagens, já tem tom, já tem tudo apresentado. A partir daí, da mesma forma que um aluno de desenho faz modelo vivo e não obrigatoriamente vai fazer ilustração realista para o resto da vida, você faz um exercício de narrativa episódica que vai ajudar a compreender o formato”, comenta ela, que é mestre em roteiro para cinema e televisão pela University of Southern California e já integrou dois projetos com Indicação ao Emmy Internacional.

Sobre a definição de SPEC, uso e aplicação no mercado nacional e internacional, Julia, Paula e Leo falaram mais ao Inspire-se. Confira:

Julia Priolli – roteirista e gerente de conteúdo original da Fox

O SPEC tem a função no mercado de provar que você é capaz de escrever o show (ou série) dos outros, que você seria um excelente staff writter (roteirista contratado). Parte-se do princípio de que ninguém duvida que você e capaz de escrever seu próprio projeto e os personagens que você inventou. Mas você também precisa capaz de escrever para o que os outros inventaram.

Quando pensamos isso para o curso, foi sobretudo porque, na minha experiência, foi com o curso de SPEC, em Columbia, que comecei a entender as estruturas e os fundamentos básicos de gênero. No Brasil, a meu ver, há ainda pouca cultura de gênero. Em um processo de criação,  é preciso discutir muito cada gênero, a quem pertence cada história, quantas beats cada história tem, quantas cenas e como elas evoluem. De quais atos se dão os pontos de virada, quantos são os atos.

Tendo isso tudo em vista, partimos também da ideia de que o SPEC é muito bom para principiantes. Os personagens já estão dados, a premissa e o universo então muito bem consolidados. Então, quem está começando precisa aprender a falar com a voz daqueles personagens e escrever enredos que façam sentido dentro daquele universo e daquela premissa. É um exercício incrível.

Quando estudei na Columbia, tive que fazer o SPEC de “Two and a Half Men”, como se ela já estivesse no ar, de uma temporada atual na época. Assisti em 2012 e precisei imaginar o que aconteceria na temporada de  2013.

No mercado

Para o mercado, é possível apresentar para o agente um SPEC um pouco mais antigo. Por exemplo, se você quer trabalhar em um show como “Os Simpsons”, por exemplo, não deve mandar um SPEC de “Os Simpsons”. Isso é um tiro no pé, porque eles não vão nem ler. Os produtores vão te devolver sem nem abrir o envelope com a sua ideia, porque se eles depois colocam algo parecida no ar, você pode processá-los. Então, você deve mandar um SPEC do “South Park” para mostrar que sabe trabalhar aquele gênero, mesmo que não seja necessariamente o que você quer escrever no futuro.

Paula Knudsen – roteirista e criadora do site http://www.paulaknudsen.com/

O SPEC como exercício de aprendizado

A utilidade de aprendizado de um SPEC, da maneira que os americanos usam no processo de ensino, é uma maneira de você aprender a dominar a estrutura, seja ela de meia hora ou uma hora, sem o peso de construir um piloto. Porque o piloto tem uma complexidade de contar uma história pela primeira vez naquele universo, então além de contar a história, você precisa introduzir o universo.

O SPEC ajuda o roteirista a treinar, dentro de um universo que já tem personagens, já tem tom, já tem tudo apresentado.  Com o SPEC, treina-se esse exercício mais simples. A partir daí, da mesma forma que um aluno de desenho faz modelo vivo e não obrigatoriamente vai fazer ilustração realista para o resto da vida, você faz um exercício de narrativa episódica que vai ajudar a compreender o formato. Porque não tem como explicar para a pessoa como escrever aquele formato. É uma maneira pessoal de escrevê-lo e de se apropriar dele.

No mercado norte-americano, hoje em dia, muitas vezes no lugar do SPEC, pede-se  dois pilotos que o roteirista criou de séries de um determinado gênero. Por exemplo, se estão procurando alguém para contratar em comédia nonsense, vão querer dois pilotos da pessoa nesse gênero.

Leo Garcia – roteirista, sócio da produtora de roteiros Coelho Voador e diretor-geral do FRAPA (Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre)

O nome vem de “Speculation”, que seria um roteiro de especulação. O SPEC é uma ferramenta muito importante pra a indústria americana, que funciona bem diferente da brasileira. Nós ainda estamos a anos-luz deles, principalmente com relação ao trabalho do roteirista. Então,  o SPEC lá tem diversas conotações.

Uma das mais famosas é basicamente: pegar uma série que já existe e escrever um episódio que ainda não foi feito, como se fosse o roteirista daquela série. Assim o profissional pode mostrar seu talento.

Têm brasileiros que se aventuram no mercado norte-americano, mas é difícil entrar. Escrever um bom roteiro na nossa língua já é complexo, no outro idioma, então, tem que dominar muito, ter uma fluência perfeita e de preferência morar em um dos países para entender o contexto. No caso de uma comédia, por exemplo, faz diferença.

Outra característica do mercado é que eles não recebem SPEC da própria série. Os produtores do “Game of Thrones”, por exemplo, não recebem um SPEC do “Game of Thrones” porque há uma preocupação muito grande com processo.

Brasil: SPEC ou Piloto?

Este é um assunto que está em voga e há uma discussão se o SPEC está mesmo em baixa no mercado ou não entre os profissionais da área. Além desse modelo, que é basicamente escrever de graça para provar o talento, tem o modo mais próximo como de como funciona no Brasil: o roteirista escreve um roteiro por conta para tentar vendê-lo.

Nos anos 90 isso valia muito. No Brasil, se um roteirista manda um SPEC de uma série para as produtoras, elas podem até estranhar, porque não estão muito acostumadas com esse processo. Em geral, aqui, quando um roteirista vai ser chamado, o que é avaliado é o currículo, alguém que possa ter indicado o profissional ou algum trabalho que já foi ao ar desse roteirista, por exemplo.

Quando eu estava começando minha carreira, em 2006, escrevi o roteiro de um longa autoral, o que não deixa de ser um SPEC. Hoje em dia escrevemos o argumento e tentamos um edital para desenvolver o roteiro. Naquela época os investimentos eram menores, mas fomos contemplados em edital e esse ano o filme deve ser lançado.

Na minha produtora eu recebia muitos roteiros impressos, hoje recebo mais por e-mail, de pessoas que gostariam de trabalhar comigo.

Um erro comum é mandar dez roteiros de uma vez, ninguém consegue para a vida para ler dez roteiros. Mas se o profissional mandar um ou dois, vou ler eventualmente e perceber o estilo da pessoa e posso entrar em contato para desenvolver o projeto. E isso não deixa de ser uma forma de SPEC.

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