Para explicar a essência desse elemento, tão importante para a criação de séries para TV e para toda obra narrativa, não podemos deixar de mencionar  a Poética, de Aristóteles.

Como explica o escritor, professor e roteirista Ricardo Tiezzi, “na Poética, Aristóteles aponta claramente o senso de unidade que consiste na ideia de que se trata de um todo coeso. E se você tirar qualquer uma das partes ou momento da tragédia, vai fazer falta. Toda parte está a serviço de um conjunto.”

Considerando ainda a obra do filósofo grego, “a Unidade Dramática seria a unidade vinda do fato de que todas as vontades do personagem são movidas em direção a um objetivo único, em ações encadeadas de causa e efeito, sendo que o fim é atrelado ao meio e o meio ao começo”, explica a diretora e roteirista Renata Martins. O tema, baseado nos ensinamentos de Aristóteles, é mais aprofundado por Tiezzi, que explica os conceitos e como eles vêm sendo subvertidos para se adaptar às narrativas moderna e contemporânea.

Além de Ricardo Tiezzi e Renata Martins, conversamos também com o roteirista Thiago Iacocca, que trouxe uma visão sobre a Unidade Dramática em roteiros de documentário e não-ficção e explicou como ela pode ser utilizada.

Confira:

RENATA MARTINS – DIRETORA E ROTEIRISTA

A “Unidade Dramática“ vem do conceito da Poética de Aristóteles, que inicialmente estabelecia que haviam três unidades no teatro: unidades de lugar, tempo e ação.  Assim, nesse sentido, a Unidade Dramática seria a unidade vinda do fato de que todas as vontades do personagem são movidas em direção a um objetivo único, em ações encadeadas de causa e efeito, sendo que o fim é atrelado ao meio e o meio ao começo. Tudo numa narrativa deve estar inter-relacionado. Acredito que ela seja pensada na sinopse e desenvolvida ao longo das etapas de roteirização: sinopse, argumento, escaleta e cenas. 

RICARDO TIEZZI – ESCRITOR E ROTEIRISTA

A Unidade Dramática nasce com o drama. Na Poética, quando Aristóteles analisa as tragédias que ele tinha à disposição, aponta claramente esse senso de unidade que consiste na ideia de que se trata de um todo coeso, e se você tirar qualquer uma das partes ou momento da tragédia, vai fazer falta. Toda parte está a serviço de um conjunto.

Também lá está a ideia de que uma cena deve decorrer da outra, por necessidade e verossimilhança. Um momento leva a outro de uma forma “natural”, porque é necessário que siga assim e é possível que siga de determinada maneira.

Isso é a origem do que hoje se comenta muito diante de um episódio. Por exemplo, a pergunta que se faz em produtoras: como é que essa cena move a história adiante? No fundo essa questão já está lá, que é a causalidade. Essa cena provoca outra, que provoca a próxima e por aí vai. Então tem o movimento causal no drama, que nasce também com as origens.

E por fim a famosa comparação, também presente na Poética, da tragédia como um belo animal, com senso de ordem, de extensão e de completude. A narrativa tem uma ordem lógica, uma extensão adequada e um início, meio e fim. Uma peça que parte de um determinado ponto, deflagra um conflito e se completa, se resolve.

Isso tudo é o senso de dramática e está presente desde o início do drama. Essas são premissas da unidade aristotélica, que ao longo da narrativa ocidental até o século XVIII, fazendo um grande resumo aqui. Os criadores foram levando os conceitos de Aristóteles ao limite, fazendo com que essas premissas funcionassem da melhor forma possível.

A gente tem uma busca por um certo drama, que um autor chamado Peter Szoind chamou de Drama Absoluto, que é fazer com que essa Unidade seja muito perfeita, muito precisa e muito rígida. Existe um termo das peças francesas do século XVIII que foram batizadas de Peças Bem Feitas. A tal Peça Bem Feita nada mais é do que aquela que tem perfeição na sua unidade, para, usando a analogia do Aristóteles, que o belo animal chegasse ao seu máximo de beleza. Então, é o drama, a unidade dramática levada ao seu limite, ao máximo. Essa foi uma busca artística e uma leitura que parte da narrativa ocidental fez da obra de Aristóteles.

A modernidade e a subversão a ordem clássica

Partindo dos conceitos básicos, as narrativas modernas vão buscar subverter a ordem clássica de determinadas maneiras, através de várias operações. Em relação à Unidade, a gente tem várias subversões possíveis. Pode-se dizer que boa parte consiste em construir a perfeição do belo animal, dessa Unidade, e boa parte consiste em desconstruir o belo animal e, com isso, o senso de Unidade vai embora junto.

Na narrativa moderna, a gente pode ter muitas comparações com a ideia de Unidade e perceber que, em vez de Unidade, a modernidade busca fragmentação; em vez de completude, busca a incompletude,  a famosa narrativa sem fim, com final aberto; em vez da causalidade, vemos as cenas terem valor por si mesmas, em vez de cenas que decorrem umas das outras.

A Unidade sofreu vários tipos de ruptura, que corrompem a ideia de linearidade, fragmentando a narrativa, que corrompem a ideia de causalidade, apostando na casualidade, ou seja, as cenas não precisam mais ter uma decorrência lógica uma da outra. E isso corrompe a ideia de completude, pois elas podem ser experiências mais abertas. Essas são as rupturas mais comuns. E isso tudo porque a narrativa moderna parte do princípio de que se você romper a unidade, você se aproxima mais da vida como ela é e da experiência do que é o humano, do que o drama puro e rígido, com aposta integral na Unidade. Este soa a todos os narradores modernos muito artificial. Se você faz as cenas sem precisar ter uma progressão, um desenlace ou um clímax, você consegue ter uma experiência contemplativa da vida, mais no seu cotidiano e na experiência humana real, do que num experiência humana de palco, digamos assim.

THAGO IACOCCA – ROTEIRISTA

Apesar de muitas vezes o documentário aparentar prescindir de uma unidade dramática definida, isso é apenas uma falsa sensação de generalização, provavelmente causada pelo pouco apelo que as produções documentais carregam. Por se tratar de um tipo de obra mais autoral que a ficção, do ponto de vista de envolvimento do diretor, e que exige do realizador a presença e influência em todas as fases do processo, os bons documentários acabam sendo reflexos de seu olhar. Por isso, a Unidade Dramática do filme ou série que está sendo realizado reverbera essa visão de mundo específica, esse recorte dramático sobre o tema ou objeto focalizado pelo filme. Cabe à equipe compreender e assimilar essa informação e permitir que o conteúdo venha à tona na forma audiovisual.

Há tanto drama que pode-se dizer que os documentaristas são psicanalistas e seus temas são os pacientes que precisam de ajuda para serem decifrados. O documentário é o resultado dessa relação, desse percurso, e é por isso que muitos filmes mudam completamente a vida dos envolvidos, autores e personagens.

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