“Isso vale para tudo. Claro que há diferentes olhares do documentário, pois o ponto de vista, onde se coloca a câmera, se é um docudrama, a montagem experimental, o tradicional. Mas penso que o documentário é uma forma de ficção.”  Assim Eliseo Altunaga, um dos mais importantes roteiristas do cinema latino-americano, respondeu ao blog Inspire-se quando questionado sobre as particularidades e os desafios do roteiro de não ficção.

Da mesma forma que Altunaga, que esteve no Brasil em outubro para ministrar cursos e participar do projeto de desenvolvimento de projetos audiovisuais BrLab (http://www.brlab.com.br/), diversos outros profissionais que atuam na TV e no cinema, criando roteiros de ficção e não ficção, apontaram a importância de se construir uma  narrativa consistente seja em que gênero e meio for.

Para o roteirista Di Moretti, o documentário não só tem roteiro como muitas vezes tem um processo de roteiro mais longo que o da ficção. “O grande diferencial do documentário é que ele não tem roteiro engessado. Mas não vejo esta diferença muito grande entre narrativa de ficção e não ficção”, comenta. Moretti cita como exemplo o longa Baronesa, de Juliana Antunes, que venceu o festival de Tiradentes de 2017. “Ele não se distingue muito bem se é documentário ou ficção. Mas por que fazer esta distinção se, em termos de narrativa e desenvolvimento dramático, é um ótimo filme? Esta diferenciação não deveria existir”, completa ele, que assina o roteiro de documentários como Tropicália, de Marcelo Machado, O velho, a história de Luiz Carlos Prestes (1997), de Toni Venturi e Dominguinhos, Mariana Aydar, Joaquim Castro, Eduardo Nazarian.

O inverso também é válido para Altunaga. Segundo ele, no cinema tradicional de ficção também há um caráter documental. “Como se filmam os ambientes, a forma como as pessoas se vestem, comem, conversam… Muitas cenas de filmes são verdadeiros documentos de sua época”, comentou o também escritor e professor que, entre os projetos que roteirizou e assessorou, estão Violeta foi para o céu (Andrés Wood, Chile, 2011), Tony Manero (Pablo Larraín, Chile, 2008), Machuca (Andrés Wood, Chile, 2004).

Aleksei Abib, acrescenta que, ainda que quem constrói uma narrativa não ficcional também precisa construir um roteiro com estrutura, três atos, personagens, o procedimento muda. “Pois o roteiro do documentário ainda está sendo elaborado e termina de ser construído na ilha de edição.”

Para o roteirista, os realizadores devem entender a responsabilidade que têm, pois na ficção é preciso construir um mundo com o qual o espectador vai se identificar e impactar enquanto que no caso  do jornalismo, e muitas vezes do documentário, o público espera a verdade.

A importância da pesquisa

Se construir uma narrativa para a não ficção, seja ela reality, documentário, docudrama, é tão estratégico quanto para a ficção, trabalhar bem a pesquisa também é essencial para se contar uma boa história.  “É muito importante já no desenvolvimento ter uma pesquisa e um questionamento profundo sobre quais histórias e quais personagens podem compor o projeto”, observa Carla Ponte, jurada da categoria não ficção desta edição do NETLABTV.

Para Carla, em qualquer formato é preciso contar, na fase de desenvolvimento, com pelo menos cinco cases consistentes para se apresentar a canais e produtoras interessados. “Isso não precisa estar totalmente escrito. Você tem mostrar que tem acesso a cases e histórias de personagens, pelo menos um fundamento pra dizer que tem de onde buscar tudo”, indica a produtora executiva, que já desenvolveu e supervisionou dezenas de produções originais para a Discovery Networks Latin America/US Hispanic, entre outros tantos projetos.

Carla também aponta que desenvolver bem a escaleta e o outline são essenciais no momento de se apresentar uma nova série aos canais interessados, pois vão mostrar que o criador já pensou na estrutura, nas dificuldades e nas mudanças que o projeto pode sofrer.

A importância da pesquisa e da formatação do projeto é ponto defendido tanto por profissionais da TV quanto do cinema documental. Patricio Guzmán, diretor de obras-primas como A Batalha do Chile – sexto lugar entre os 100 documentários mais importantes da história –  e Nostalgia da Luz, acrescenta que a pesquisa e a escrita são essenciais para o amadurecimento da obra, seja série ou filme. “Escreve-se para fixar a obra, para cravar as ideias na cabeça. Escreve-se também para explicá-las aos outros. Se não se escreve nada, tudo fica reduzido a uma história memorizada”, afirmou ele ao blog Inspire-se, citando trecho de seu livro Filmar o Invisível, que ele lançou no Brasil em outubro.

O cineasta, notável por seus filmes que unem questões políticas à uma linguagem poética, observou a importância de se construir arcos dramáticos e histórias saborosas para tornar questões que poderiam ser restritas a um público de nicho capazes de conquistar um grande público. “No meu caso, eu os escrevo e imagino um filme que ainda não foi filmado, invento personagens, crio diálogos que parecem que existiram”, revela.

Em seguida, com o roteiro ‘inventado’ em mãos, deve-se checar o que se idealizou. “A partir daí, é necessário filmar porque as coisas imaginadas são quase iguais às que existem”, acrescenta.

No entanto, a criação livre de Guzmán tem bases sólidas na pesquisa. “Ela é parte do roteiro. Depois que se teve uma ideia, é preciso pesquisar se é o que se pensa real ou não. E se o que inventou não é real, é preciso percorrer um caminho para se chegar a algo parecido. Mas o roteiro não é determinante, não deve te prender. É uma forma de começar”, completa.

Depois da pesquisa, o dispositivo

Guzmán, em Filmar o Invisível, propõe a seguinte linha de trabalho para a escrita do roteiro de não ficção:

1) a ideia, 2) o dispositivo, 3) a sinopse, 4) a pesquisa, 5) a localização de cenários e personagens, e 6) o “roteiro imaginário”. No entanto, dispositivo e pesquisa podem caminhar juntos e contribuir para a construção da narrativa.

O roteirista Thiago Iacocca é quem aponta para o quão estratégico pode ser encontrar um dispositivo que também ajude o roteirista a manter a unidade dramática de um projeto  seriado de não ficção. E esta investigação pode começar já na premissa e no título da série. Segundo ele, todo projeto tem seu conceito e traz uma questão que muitas vezes está expressa no próprio título.

Um exemplo é o caso de Friends, rigorosa do ponto de vista de Dispositivo Narrativo. “Isso é algo do qual o Patrício Guzmán fala muito. Por que uma série se chama Friends? Qual é a importância deste título para a série? É porque ela realmente é sobre amizade, mas a série realmente usa o título de forma lúdica”, explica.

Para ele, o storytelling deve ser fiel à definição e estar em comunhão total com o conceito durante todo o projeto. “Isso é crucial para não se esquecer dele e de como se está querendo comunicar. E como se quer usar o dispositivo no documentário. Ele funciona como a faísca que vai ser usada para se chegar em lugares surpreendentes. O documentário tem de pegar este dispositivo e desdobrá-lo em ações documentais, entrevistas, pensar como o conteúdo vai se relacionar com ele”, explica.

Se dispositivo, pesquisa e roteiro estiverem em consonância, será possível, então, construir um bom storytelling, pois haverá sempre um conceito que vai nortear o desenvolvimento e a produção da série. A importância de se estruturar bem a primeira fase do projeto é tamanha que interfere também na escolha dos personagens e até mesmo na montagem, já na fase final. “Na hora em que vai se ouvir os entrevistados, alguns que estavam na pesquisa já não entram nas filmagens. Por quê? Porque o conceito foi definido de uma maneira que certos personagens não cabem mais. Na montagem, planos que se distanciam do conceito da série também caem. É preciso estar sempre atento a isso”, observa Iacocca.

O roteirista observa que há documentários mais caóticos que não precisam ser tão rígidos. Mas definitivamente a primeira missão para quem quer construir um storytelling eficiente passa por definir um dispositivo que esteja atrelado ao conceito e ser fiel a ele durante todo o processo.

O  valor dos personagens

Para ter confiança no roteiro construído, e permitir que o fator imponderável se revele, é também preciso construir o roteiro com base em bons personagens. “A definição dos personagens também é crucial, se você não tem uma pesquisa de personagens reais, descreva os personagens com suas características chave para que você já diga (aos canais interessados) que tipo de personagem que você tá buscando”, indica Carla Ponte.

Para Di Moretti, a escolha dos personagens é estratégica, pois nunca se deve optar por personagens que soem repetitivos, com a mesma origem, histórias muito parecidas. “Esta etapa é quase como a de escalar um time. E vou optar um que tenham jogadores com as maiores possibilidades dramáticas e características diferentes entre si.”

Por fim, é preciso estar sempre aberto a mudanças, tanto de processo quanto de mercado. “No momento em que você leva o projeto para um canal, ele vai virar um produto daquele canal. Então esteja aberto a ouvir como aquele canal acha que seu produto vai vender melhor. Você vai ver se interessa ou não essa adaptação para ter seu projeto no veículo. Essa flexibilidade deve ser levada em consideração.”, aponta Carla.

Receba NossasNovidades