Na faculdade, estudou roteiro e consolidou a ideia de que “através dele é que nascem as representações, as reproduções dos imaginários coletivos, a perpetuação dos estereótipos, mas também, a possibilidade de descolonização desses estereótipos.”

Logo após se formar, dirigiu seu terceiro curta, “Aquém das Nuvens”, projeto que nasceu na universidade, foi contemplado com Prêmio Estímulo e participou de uma dezena de festivais no Brasil e no exterior.

Pouco tempo depois, Renata realizou seu primeiro trabalho profissional na série “Pedro e Bianca” (TV Cultura), na qual integrou a equipe de roteiristas. Criada por Cao Hamburger, Teo Poppovic e Thiago Dottori, a série venceu o Emmy Kids 2014. “Essa experiência despontou como uma profissão possível. Entrei no projeto com o bonde andando. Tive que me atualizar em pouco tempo e escrever em tempo recorde. Era muito crua, mas tive apoio da equipe e encontrei formas de exercitar cada vez mais”, relembra ela, que também é  pós-graduada em linguagens da Arte pela USP.

Desde “Pedro e Bianca”, a atividade de roteirista tem sido o principal trabalho de Renata, que é também diretora e, entre outros projetos, idealizou e produziu a websérie “Empoderadas” (https://www.facebook.com/programaempoderadas / Youtube: https://www.youtube.com/channel/UC3FMQHv9igM50Bj54pLKp7g), ao lado de Joyce Prado.

A websérie é um sucesso e retrata trajetória de mulheres negras que, cada uma com suas características e histórias, lutam contra as opressões a que estão submetidas. “Surgiu em um momento de muito questionamento sobre representação e a ausência das mulheres negras no audiovisual. Eu olhava para o lado e não enxergava as fotógrafas, roteiristas, técnicas de som, montadoras, negras, mas sabia que elas existiam”, observa.

O blog Inspire-se conversou com Renata Martins, que atualmente é roteirista colaboradora em “Malhação –  Viva a Diferença”, da Rede Globo. “Um projeto muito especial que dialoga com a minha trajetória e com o público que eu tenho desejo de dialogar.” Entre outros assuntos, ela falou sobre sua trajetória profissional, sobre diversidade, novas narrativas e questões de raça e gênero no audiovisual brasileiro. Confira:

Integrar a equipe de criação de “Pedro & Bianca” foi uma conquista importante, não? Aliás, a série, referência e merecidamente premiada com o Emmy Kids, inovou e abriu espaço para narrativas mais criativas e contemporâneas na TV aberta e também inspirou as TVs a cabo?

Sim, acredito que todo o movimento foi importante, muito importante. Foi minha primeira sala de roteiristas. Primeiro trabalho para TV. Temática relevante e processo cuidadoso, mas esses prêmios reverberam pouco na minha profissão. Me lembro de ter sido convidada apenas por um estúdio de animação – o Teremim, para roteirizar o piloto da série – Lulina e a Lua. Além deste trabalho, não me lembro de ter recebido convites para compor outras salas de roteiristas. Acho que há um imaginário que roteiristas negros só podem compor projetos de temática negra, né? Ninguém pensa isso de um roteirista branco, eles são universais. Nós, não! Se nós, quanto produtores de conteúdo negros, não compreendermos o quão racista pode ser esse olhar, que limita o nosso espaço criativo, ficamos ali esperando até que haja outros projetos com protagonistas negros e, olhe lá!  

Como você vê o mercado audiovisual hoje, como um todo, no Brasil? Qual é, na sua opinião, a principal carência deste mercado?

Acredito que estávamos em um momento aquecido para o “mercado audiovisual brasileiro”, tanto no que se refere às produções quanto à recepção dessas produções, tanto pelo público interno quanto pelo mercado internacional. Ampliamos minimamente as questões sobre raça e gênero, mas estamos bem longe de chegarmos ao ideal. É preciso ampliar e democratizar o acesso aos investimentos. Além de coragem para investir e apostar em novas narrativas e realizadores. Mas os tempos são outros. Há um cenário incerto e os retrocessos batem à porta. Vale lembrar que, para nós, realizadores negras e negros, o ” mercado audiovisual “ainda não existe. É utópico e, segundo o Eduardo Galeano, “A utopia serve para caminhar”. É isso que temos feito. Caminhemos…

Falando especificamente do mercado de séries, há algo que você considera indispensável e que ainda não temos no Brasil?

Eu tenho assistido a muitas séries internacionais e reparado na multiplicidade dos autores e como isso reverbera na diversidade e riqueza dos temas propostos, assim como na ampliação do público.
Sinto que investimos pouco em novos autores e roteiristas. Ninguém se torna showrunner da noite para o dia. Talvez a nossa maior fragilidade, diante do mercado seja a não autonomia e a falta de investimento em novos criadores.

Desde que você começou a trabalhar como cineasta e roteirista, o mercado e as relações de trabalho mudaram muito? Você, como mulher e como negra, você vê evolução?

Sim! Há dez anos, na minha cabeça, era impossível  viver só como “cineasta”. Hoje é uma realidade! É possível! Não só para mim, mas para algumas várias mulheres negras cineastas que conheço.  Ainda assim, não dá pra esquecer que vivemos em um País racista e que o audiovisual reproduz as estruturas racistas em seu sistema de produção. Eu não sei se evolução é a palavra correta, mas sinto que esse pequeno avanço não se deu por um desejo genuíno do mercado e sim pela demanda do mercado, pelo esgotamento das narrativas hegemônicas e pela pressão exercida, sobretudo, por mulheres e homens negros no audiovisual. 

O Brasil foi o último país da América a abolir a escravidão oficial e, corre-se o risco da nossa cinematografia não ter acompanhado essa narrativa. Pois basta olhar para os sets de filmagens e nas salas de criação para ver o lugar que as pessoas negras ocupam: Ou estão para servir como mão de obra barata e pesada ou são objeto de pesquisa. 
Não há evolução enquanto olharmos os números e só nos depararmos com ausências. Nós roteiristas e diretoras negras, não existimos oficialmente para a produção audiovisual brasileira. Não estamos em seus vídeos institucionais. Tampouco acessamos os meios de produção. Segundo a pesquisa do Instituto Gemma, representamos 0% nas produções brasileiras lançadas nas salas de cinema e pesquisadas entre 2002 e 2015. Não há evolução sem voz. Não há evolução enquanto acharmos que uma mulher negra ocupando esses espaços é o suficiente. 

Como foi o processo criativo e como surgiu a websérie “Empoderadas”? E em que momento vocês pensaram e decidiram que precisavam realizar essa websérie?

A websérie surgiu em um momento de muito questionamento sobre representação e a ausência das mulheres negras no audiovisual. Eu olhara para o lado e não enxergava as fotógrafas, roteiristas, técnicas de som, montadoras, negras, mas sabia que elas existiam.

Ao ler uma matéria com a grafiteira Criola, no blog Capitolina, compreendi o significado da palavra empoderamento e do poder da ferramenta  – Audiovisual –  que eu tinha em mãos. Neste mesmo dia, convidei a realizadora Joyce Prado para dar vida ao projeto, que já nasceu com o objetivo definido: Produzir mini-documentários com mulheres negras das mais diversas áreas de atuação e que, por meio de sua ação no mundo, fortalecem, empoderam outras mulheres.

Além disso, era  fundamental que a equipe fosse formada essencialmente por mulheres negras, pois, além de produzir, era preciso criar um espaço de experimentação, afeto e acolhimento que fosse protagonizado por mulheres negras. Meu desejo ainda desorganizado era que as profissionais negras, que estavam foram do mercado, pudessem chegar mais fortalecidas quando tivessem que enfrentar toda essa estrutura que as exclui. Assim nasceu o projeto e lá vamos nós para a quarta temporada que já está gravada.

Vocês pensaram em criá-la como série de TV, para exibição em canal aberto ou fechado? Ou o projeto era de ser um websérie desde o início?

Não, o projeto nasceu como websérie. Nosso desejo era atribuir dignidade à trajetória das mulheres negras. Ampliar essas vozes e ressignificar a construção das nossas imagens. Nasceu como um exercício de coexistência. A partir das mulheres negras que entrevistamos, existíamos como realizadores de audiovisual. Lançar na internet era a forma mais barata e mais fácil de fazer o projeto acontecer e chegar ao máximo de pessoas possível.   

Por falar em webséries, há uma forte tendência de crescimento neste segmento. O Brasil já possui até um Web Festival, o Rio WebFest. Como vê o futuro da produção audiovisual e o consumo destes conteúdos online?

Sim, em 2015 nós fomos selecionadas para a competitiva do Rio WebFest. É uma franquia mundial. Há edições em muitos países. Eu fui até lá conferir. É um mundo não tão paralelo assim. É real. Há especialistas. Estudiosos. Muito dinheiro circulando. Muita experimentação de linguagem e narrativas. É algo que a gente não tem muita noção. Para o mercado internacional, não é um subproduto do audiovisual, para nós, sinto que ainda é. Ainda assim, eu tenho percebido que no Brasil, a websérie é um mercado em expansão. Para nós, mulheres e homens negros, é mais um canal de comunicação que precisa se utilizado cada vez mais. Pois nos possibilita liberdade criativa, a organização do discurso e experimentações da linguagem audiovisual.

Você acha que a TV, seja aberta ou fechada, tem espaço para uma série como “Empoderadas”? Como você avalia essas possibilidades de mercado?

Sim! Acredito que “Empoderadas” dialoga muito com as TVs fechadas. Inclusive a cineasta Juliana Vicente lançou a série que documenta histórias de pessoas negras – “Afronta” – em duas plataformas: Internet e TV Cultura.

O desafio é escrever o projeto e dialogar com as emissoras. O meu desejo é me comunicar com o maior número de pessoas possível. Porém, gostaria de manter o formato original. Protagonistas negras, documentadas por profissionais negras do audiovisual. Eu sei que o meu escopo limita, mas se há tantas produções só com gente branca, porque não ter pelo menos uma com uma equipe formada essencialmente por mulheres negras?

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