A terceira edição do Seminário NETLABTV reuniu criadores, programadores, gerentes de conteúdo, executivos e membros de entidades do mercado audiovisual para discutir as novas fronteiras da criação de séries brasileiras. Realizado pelo Instituto NET Claro Embratel e a Casa Redonda em abril, na Unibes Cultural, em São Paulo, o evento discutiu os desafios do setor, a importância da formação de roteiristas, da regionalização da produção, entre outros temas.

Além das mesas e discussões, o evento contou com duas masterclasses, ministradas pelo diretor e roteirista Breno Silveira e por Patrício Vega, roteirista e diretor do El Laboratorio del Guión, de Buenos Aires, que falaram de seus respectivos trabalhos e também da criação de séries.

Abrindo a programação, no primeiro debate do dia, foram discutidas as Políticas Públicas Audiovisuais no Brasil: Novos desafios da Produção no Âmbito Digital, Regional e Internacional, que contou com a participação de Débora Ivanov, diretora da Agência Nacional do Cinema – ANCINE; Fernando Magalhães, diretor de programação da NET; Rodrigo Guimarães, conselheiro fiscal da BRAVI – Brasil Audiovisual Independente e Maurício Ramos, presidente da Spcine, A conversa teve a mediação de Paulo Schmidt, presidente da APRO.

Schmidt abriu a discussão ressaltando a importância de iniciativas como o NETLABTV e também a necessidade de políticas públicas para um setor em franco crescimento como o da produção de TV no Brasil. “Neste momento, depois de uma reconstrução de uma nova gestão da ANCINE, e do fato da gente ter muito reconhecimento pelo que a Débora (Ivanov) fez enquanto esteve como presidente interina, o fato da gente estar em um momento fértil como agora tem muito a ver com o que ela realizou no ano em que esteve na presidência”, afirmou ele.

“E a gente está em um momento de várias possibilidades, várias linhas de financiamento sendo relançadas. Evidentemente nossa atividade precisa desta coordenação, de recursos e gostaríamos de ouvir a diretora da ANCINE para saber melhor em que momento estamos agora”, completou o presidente da APRO.

Audiovisual: Geração de 24,5 bilhões para a economia brasileira

Em seguida, Débora Ivanov apresentou dados e números recentes de diagnósticos que a ANCINE tem feito, com dados importantes para se entender melhor as políticas públicas e o mercado audiovisual, principalmente o de TV, no Brasil.

A diretora da ANCINE comentou que a representação do setor para a economia brasileira é estratégica e seu valor está acima dos valores de indústrias como as de fabricação de produtos têxteis, de produtos eletrônicos, produtos óticos, de produtos farmacêuticos, além de papel e celulose.

“A gente representa 24,5 bilhões de valor adicionado para a economia do País e quase 0,5% do PIB. E com geração de 100 mil empregos formais, lembrando que boa parte da nossa produção é feita com nota fiscal e serviços temporários, o que representa 150 mil empregos indiretos“, pontuou Débora. “Isso significa que o setor audiovisual brasileiro presta uma grande contribuição para o desenvolvimento da economia brasileira”, completou. 

A diretora também observou que, no período de 2014 para 2017, houve uma retração da TV aberta e uma grande expansão da TV paga. “Um dado muito impactante é a quantidade da programação adicional da TV aberta e da TV fechada. Na TV aberta, a gente tem maioria de produção própria dos canais. Já na TV paga, mesmo com as cotas e todo o esforço de fomento de política pública, os dados de 2016 apresentam 5% de conteúdo nacional. É por isso que quando a gente fala que quer mais espaço, quer de fato isso. Quer fazer mais negócios e produzir mais”, declarou a diretora.

O Impacto da Lei do Cabo

Débora também comentou o impacto da Lei 12.485. Aprovada em 2011 e que passou a circular em 2012, a chamada Lei do Cabo elevou a produção de conteúdo independente de cerca de 500 produções para 2.246 em 2016, representando mais de 400% de crescimento. Hoje há mais de nove mil produtoras registradas na ANCINE. Destas, cerca de 1.600 produzem conteúdo.

Destes conteúdos produzidos em 2016, mais de 3 mil horas são de obras inéditas, sendo a maioria delas seriadas. Cerca de 1.108 são documentais, 966 são de variedades, e 570 de ficção. “É um sucesso absoluto da nossa lei. Durante o ano de 2016, no quesito de cumprimento de cotas, tivemos em torno de 53% acima do estabelecido pela lei, o que significa que nosso conteúdo é ótimo e o consumidor adora, o que é um bom negócio para as produtoras”, observou Débora.

Aumento da Produção Regional

De acordo com os dados da ANCINE, a demanda de conteúdo brasileiro por ano é de 109 canais. “Por meio do uso do Artigo 3A e do Artigo 39, também se pôde promover a produção regional e coproduções com outros estados. Hoje, também foram incluídos realities e programas de variedades, que antes não podiam ser financiados pelo Fundo Setorial. E para a gente ganhar mais agilidade, todo projeto setorial com a TV tem de vir com a TV para licenciamento. Se o canal selecionou, a ANCINE não faz mais uma segunda seleção”, explicou Débora.

E para a produção regional, a agência flexibilizou uma série de regras, reduzindo em 50% o valor das licenças, para que as produções locais possam ter mais facilidade de acessar os canais e distribuidoras. “A gente diminuiu o valor da licença para que os canais se interessassem mais em buscar produções em outros estados. Também aumentamos o aporte às parcerias regionais e lançamos editais específicos para esta produção regional. Além disso, estamos debatendo que aportes poderemos fazer em breve para incentivar a produção regional, entre outros temas”, encerrou a diretora, que apontou também as novas fronteiras de crescimento do setor.

VOD e sua contribuição para o audiovisual brasileiro

Além de discutir a melhor forma de facilitar as coproduções internacionais para a TV brasileira, a ANCINE também vem debatendo a melhor forma de incentivar o mercado de produção de games, VR (realidade virtual) e o VOD (vídeo on demand). Segundo Débora, o grande debate que se dá é sobre o VOD, tanto pelas entidades do audiovisual quanto pelo Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual e da Ancine.

Para Débora, é preciso analisar que medidas serão propostas para a regulação do VOD, pois já existem várias produções diretas para o VOD, incluindo Youtube, Netflix, e NET Now. “Nós, como entidade pública, estamos preocupados em criar um ambiente de isonomia para que novos participantes possam entrar neste mercado, que já é um dos maiores do mundo”, informou a diretora.

Para isso, é preciso dar segurança jurídica em relação a vários aspectos. “Precisamos determinar qual é a contribuição dos desenvolvimento da nossa indústria. Afinal, os distribuidores contribuem para o setor através de incentivos; a lei 12.485 trouxe esta contribuição que tornou nosso setor tão pujante. E o VOD? Que contribuição trará diretamente para o desenvolvimento do mercado local? A gente quer espaço também. Não quer ficar no fim da plataforma, quer visibilidade. Então, como garantir isso? Estes são os pontos que as entidades, a ANCINE, o Ministério da Cultura e os membros da indústria estão discutindo agora para acelerar este mercado”, concluiu Débora.

O VOD vai acabar com a TV por assinatura?

Complementando os dados e as questões trazidas pela diretora da ANCINE, Schmidt observou que são tantas novidades que os produtores se perguntam sobre a melhor forma de ocupar o mercado cada vez mais com conteúdo nacional. E ressaltou que o VOD pode significar uma plataforma importante.

“A TV passa por uma transformação e o VOD pode ser uma válvula importante para esta mudança. Talvez a NET NOW seja hoje, e quem sabe será também no futuro, a plataforma com um número ainda mais expressivo de assinantes. E por isso chamo o Fernando (Magalhães), que é entusiasta da produção nacional, para falar da relação com os produtores que têm seu conteúdo no NOW. Há de fato uma transformação? A TV por assinatura vai acabar e o VOD vai substituir tudo isso?”

Ao questionamento, Fernando Magalhães, diretor de programação da NET, respondeu com a observação que o sucesso do NOW sobre outras plataformas é que quando se liga a TV, seja de que canal for, o primeiro destaque que há é o do conteúdo sob demanda. “A mudança que estamos tendo não vai acabar com a TV por assinatura. O que ocorre é uma transformação de um hábito de consumo. Nosso objetivo é tentar dar o máximo de conteúdo com maior facilidade para o maior número de assinantes”, explicou Magalhães.

A revolução da Replay TV

O diretor de programação ressaltou que a NET acaba de lançar uma funcionalidade sob demanda chamada Replay TV, já disponível em São Paulo e no Rio de Janeiro, que em breve será estendida para todo o País. “É matadora, pois contém duas opções chamadas Catch Up, que é voltar no tempo, e Start Over, que é recomeçar um determinado programa”, informou. “O que é isso? Você chega em casa às 19h30 e o seu jornal começou às 19h10. Você clica na opção e o jornal volta para as 19h15. Chegou em casa e quer ver o programa de culinária que passou anteontem? Você pode voltar até uma semana, no dia em que o programa foi exibido e começa o programa novamente. Isso é brincar com o tempo”, explicou Magalhães.

Ele ainda pontuou que os conteúdos continuam sempre associados à marca dos canais. “Uma das nossas grandes brigas com as programadoras para ter mais conteúdo por assinatura envolve uma questão de custo. Para uma programadora licenciar um conteúdo sob demanda, ela precisa comprar aquele direito. E a gente não tem como pagar a mais para ter esses conteúdos sob demanda.”

Magalhães ainda ressaltou que muitos canais básicos têm como modelo de negócio a obtenção das receitas de publicidade. “E o medo do programador sempre foi “se eu pegar um conteúdo e colocar no NOW, eu vou perder publicidade porque o espectador vai pular o comercial.” Com o Replay TV, que gravou tudo que passou, o comercial faz parte de todo o conteúdo”, observou.

Ibope garantido

Com isso, o Ibope vai medir essa audiência e somá-la aos índices dos canais, ou seja, ajudando na venda da publicidade. “Isso é matador porque não é preciso ir ao NOW e procurar o conteúdo. Você vai na plataforma e associa o conteúdo do canal ao próprio canal e à sua publicidade. A gente tem feito um trabalho enorme para montar esta plataforma; temos um investimento absolutamente relevante na infraestrutura. Não é um aplicativo de banda larga”, esclareceu o diretor de programação.

Para terminar, Magalhães comentou que, além do NET NOW, foi criada uma rede de agregadores nacionais que trazem um conteúdo independente para a plataforma. “Temos uma divisão de receita que, quando um produtor nacional traz um filme para ser distribuído no NOW, a gente, numa janela de lançamento de cinema, passa 30% da receita, que é o mesmo modelo que usamos para os filmes de blockbuster internacionais.”

O executivo encerrou sua fala reforçando a aposta da NET no conteúdo nacional. “Participei muito inicialmente da criação do NETLABTV. A razão da gente ter feito o investimento, em 2013, neste programa é que a gente queria ver como poderia contribuir para a produção nacional independente do ponto de vista de criar um programa para aumentar a competência interna”, revelou.

Para Magalhães, os canais brasileiros são estratégicos e fundamentais. “Isso porque, com a lei, a gente já estava cumprindo a cota. Aliás, lançamos 12 canais de cota. Hoje a gente tem um canal a mais do que é necessário, temos 13. Estamos muito próximos de lançar mais dois canais nacionais de CABEQ (Conteúdos Qualificados). E no futuro próximo vamos ter 15, em vez dos 12 obrigatórios. Se a lei acabasse hoje, não cancelaríamos nenhum canal. A gente distribui o máximo de conteúdo nacional”, comentou.

E concluiu: “E o NETLABTV, para o qual a gente traz as programadoras internacionais, é um projeto que elas entraram com a gente. Mesmo que tenham seu processo próprio de análise roteiro e desenvolvimento de conteúdo, elas entraram no projeto para contribuir para esta rede que visa melhorar o audiovisual brasileiro.”

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