Criado em família católica, Arthur Veríssimo segue os ensinamentos hinduístas, mas tem grande simpatia pelos terreiros de candomblé. “Sou um panteísta”, diz o jornalista, de 55 anos, apresentador de Na Fé, que estreia nesta quarta-feira, 17, às 22h30, no Discovery. A série mostra diferentes festas religiosas de países latinos, como Cuba, Haiti, Bolívia e Brasil, em que o carioca participa dos rituais e sente – literalmente – na pele o que os devotos passam em festivais que desafiam os limites do corpo.

“Pensei: ‘Será que a morte está batendo à porta?'”, diz ele sobre o momento em que teve mal de altitude ao gravar no festival indígena de Qoyllur Rit’I, no Peru, no qual peregrinos acampam em montanhas com mais de 5 mil metros. Lá, a equipe da Mixer, produtora responsável pela série, ficou nas mesmas condições dos peruanos que participavam, e dormiu em barracas num local em que e sensação térmica era de -15ºC.

Em uma situação oposta, com o termômetro bem acima dos 30ºC e sol escaldante, Veríssimo viu de perto a festa do Dia de Iemanjá, em Salvador, gravação acompanhada pela reportagem em fevereiro, tema do primeiro programa. Na ocasião, o apresentador mostra desde os preparativos para a cerimônia, em que compra os itens para um despacho, até o momento em que vira a noite para acompanhar a movimentação pela capital baiana e mergulha para ajudar a entregar o presente para a rainha do mar.

Depois de ir à praia do Rio Vermelho na companhia de Mãe Aíce, responsável pela abertura da festa, o apresentador segue para o terreiro dela, onde outra cerimônia antecipa a entrega do presente – um barco de madeira com oferendas, entre elas alfazema, perfume que pode ser sentido em diferentes pontos da cidade na data – acontece. Lá, na parte de trás de uma casa simples, cujas paredes têm penduradas peles de animais sacrificados para o rito, é servido um jantar e, na sequência, começam a tocar o tambor para que a religiosa incorpore um santo diante das câmeras.

Enquanto apronta a equipe, o diretor do episódio, Paulo Marchetti, espírita e médium, afirma ter rezado antes de colocar os pés no terreiro, onde, segundo ele, há muitos espíritos circulando. “Venho protegido”, conta. Ele relembra que, em outra gravação, um antropólogo amigo da produção ‘recebeu um santo’ após ser abraçado pela mãe de santo.

Horas mais cedo, Arthur Veríssimo teve o ebó, rito em que Mãe Aíce passa ervas, grãos e aves recém abatidas – na frente das lentes – pelo corpo do apresentador, numa espécie de purificação. “Mostrar gera debate. Mas o sacrifício de animais para fins religiosos está autorizado pela lei”, explica Fernando Medín, gerente-geral do Discovery Networks do Brasil.

Em Salvador, o time do Na Fé trabalhou sob a supervisão do cubano e adepto do candomblé Rafael Rodriguez, diretor de produção do canal para a América Latina, onde o programa será transmitido em espanhol. Ele conta que a atração integra a mudança do perfil dos produtos do Discovery, que vem deixando para trás o formato clássico de programas com narração e nada mais. “É um documentário moderno, em que queremos que o público sinta a mesma coisa de quem está do lado de lá. Agora, é entretenimento real.”

Discípulo direto do guru Osho, a quem foi seguir na adolescência, Arthur Veríssimo já rodou o mundo para conferir cerca de 40 festivais religiosos. Com mais de 20 idas à Índia, o jornalista mostrou por um tempo suas experiências no SBT, onde levantou a audiência de Ratinho ao exibir imagens de ritos na Ásia. Após chamar a atenção, Silvio Santos o contratou e ele ganhou um espaço fixo no Domingo Legal, nos anos 1990.

O apresentador afirma não temer participar das cerimônias em que precisa ver sacrifício de animais ou encarar bebidas que afetem o corpo e o cérebro. “Sou abstêmio, mas há lugares em que eu preciso tomar. Não dá para ficar a distância. Se eu for um burocrata, não vou ter opinião”, defende. Ao vivenciar as experiências, Veríssimo explica cada etapa para o telespectador. Ele garante estar ciente de que se trata de um programa de TV até mesmo quando está sob efeito do que precisou consumir em cada festa.

“Passo por perrengues e momentos de êxtase. Mas tenho responsabilidade, sei que estou diante da câmera”, sentencia. Ao final das quase 24 horas ininterruptas de gravação, ele mantém o bom humor e leva a sério o que aprendeu. “Quando você faz um ebó, tem de ficar em abstinência sexual. E estou há cinco anos.”

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO DISCOVERY CHANNEL

Fonte: Estadão

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