Apresentação de cases e painéis sobre as novas tendências de mercado e da criação de séries brasileiras fizeram parte da terceira edição do Seminário NETLABTV, realizado no dia 18 de abril, no Unibes Cultural em São Paulo.

Pela manhã foram discutidas as políticas públicas para TV no Brasil e também os desafios enfrentados por quem cria e também ensina a arte da narrativa. Entre diversos debates, à tarde a programação do Seminário NETLABTV contou com a presença de canais parceiros e seus representantes, que apresentaram cases de sucesso e falaram principalmente sobre formato, conteúdo e público, demonstrando a variedade de possibilidades e universos para se trabalhar um projeto de série.

A reunião de profissionais de canais tão distintos foi importante para mostrar ao público uma questão primordial para quem escreve para TV e sonha em ver sua série na telinha: “Você sabe com qual canal está falando?”

Na primeira mesa de debate contou com a presença da diretora de produção original da Sony, Bárbara Teixeira, que falou sobre a experiência da AXN e do Crackle, com destaque para a série “(Des)encontros”; e Elisa Chalfon, que representou a VIACOM e comentou o case da série “Adotada”(MTV).

Entre os pontos principais, um deles mereceu destaque: a importância do formato em uma série. Para ressaltar o quanto definir um formato é crucial para o sucesso de um conteúdo, “Adotada”(MTV) foi o exemplo perfeito. A série, que foi indicada ao Emmy Internacional em 20116, consolidou-se como formato, como ressaltou a produtora executiva Carla Ponte, o que se deve muito também à força da atriz Maria Eugênia Suconic (Mareu), protagonista de “Adotada”. “A Mareu centraliza o storytelling”, conclui Carla.

Bárbara Teixeira comentou o processo da série “(Des)encontros”, que inicialmente foi pensada, desenvolvida e dirigida por apenas uma pessoa: Rodrigo Bernardo. Assim que teve contato com a primeira temporada gravada, a Sony se interessou pelo formato e foi firmada uma parceria para a segunda temporada, que estreia no canal no segundo semestre de 2018. A diretora de produção também destacou a importância do formato, com base no case da série “Desencontros”. “O que faz de uma boa ideia uma série de TV, e faz com que essa série tenha a segunda, a terceira, a quarta temporada, é a força do formato”, observou ela.

A tarde contou também com a apresentação do case “5 Looks”, primeiro reality de moda voltado para mulheres empreendedoras, da Discovery Home&Health, com a presença do diretor de comunicação da Discovery Brasil, André Mermelstein, e da produtora Luciana Soligo. Segundo André, o perfil do canal não é problematizar, mas sim mostrar. Por isso é um canal que naturaliza todas as questões, está tudo presente. “Ele não tem preconceitos”, afirmou.

A importância da Diversidade

Minom Pinho, produtora executiva do Concurso e Laboratório NETLABTV, mediou o último encontro da tarde, sobre Programadoras e Plataformas de Diversidade. A mesa contou com Julio Worcman e Bibiana de Sá, que falaram do modelo de negócio, curadoria, audiência e destaques do Canal Curta!; Ramiro Azevedo, que apresentou a plataforma Box Play Brazil Play, da Box Brazil, e Juliana Vicente, que comentou o case da série “Afronta!” e da plataforma TV Preta.

O processo de produção e de escolha de uma série, em cada canal, norteou todas as conversas, e apontou também para a importância de se definir bem tanto público quanto canal mais adequado para a veiculação de cada produto audiovisual.

Bibiana de Sá, coordenadora de programação do Curta!, contou que mais de 1200 projetos foram inscritos e mais de 190 conteúdos selecionados pelo canal. Ela afirmou que, ao contrário de muitos canais, o Curta! não busca formato específico e que a construção é feita junto aos roteiristas, valorizando mais o conteúdo da série.

Silvia Fu (TNT), que apresentou o case da série “Rua Augusta”, ao lado de Priscilla Ferri, gerente de programação da TNT, concorda, mas salienta que é preciso saber com qual público cada canal está falando para entender qual conteúdo oferecer a cada um. “Por exemplo, se alguém pensar em sugerir uma série para o Curta!, nem adianta sugerir para a TNT, nós somos comerciais. O canal TNT, dentro da Turner, possui um público que é a massa”, concluiu.

Flexibilidade é a palavra-chave

Outra discussão presente em todas as mesas foi a grande questão entre mercado e autoralidade. Carla Ponte observou que muitos roteiristas se apegam ao seu roteiro exatamente como foi concebido, mas devem ter consciência de que a sua ideia é um produto a ser vendido primeiramente à emissora de TV e, depois, ao público desta emissora. “Pensem que vocês estão escrevendo e criando para algo que é um produto. Não percam isso de vista no desenvolvimento geral do projeto”, aconselhou a produtora executiva.

Além de pensar a ideia como produto, é preciso entender qual canal e qual público quer determinado produto. “O mercado está muito quente e você tem que assistir televisão por isso, para saber o que você quer e o que você não quer fazer. Esse encontro é importante para entender também o que o mercado espera e busca”, aconselhou Minom.

Os debatedores ainda observaram que direitos sobre a obra são negociados desde o início do processo e, para que a parceria entre roteirista e canal seja efetiva para ambos, o criativo precisa estar aberto e escutar o que os canais têm a dizer. “Não existe TV autoral”, assinalou Barbara Teixeira, que completou: “a gente sabe o que funciona; é importante ter flexibilidade, de alterar o personagem ou fazer alguma adaptação”.

“São orientações e indicações de um caminho mais assertivo para que um produto faça sucesso.  A televisão mexe com produtos. E formatos, ainda mais, são produtos que criam uma fidelidade.  Os formatos têm essa capacidade”, finalizou Carla.

Representatividade

Já quanto à adequação às plataformas, a diretora e roteirista Juliana Vicente apresentou sua produtora Preta Portê Filmes, criada em 2009, na mesma época em que a cineasta entrava no mercado de trabalho. “Eu estava há um tempo passando por algumas produtoras e entendi que para mim, pessoalmente, era um caminho muito complexo para dirigir meus filmes e contar minhas histórias e falar sobre as coisas que eu queria”, lembrou.

“A única possibilidade de a gente contar nossas próprias histórias era criar um espaço que eu pudesse gerir e acreditar nele”, explicou. Desde então, esse espaço aumentou e foi nesse caminho da busca e da luta por um terreno em que fosse possível falar de sua história e dar voz para o que a representava que surgiu também a plataforma TV Preta, pensada para a diversidade, com conteúdos nacionais e internacionais produzidos por afrodiaspóricos ao redor do mundo. Além disso, a plataforma também apresenta um braço de formação de jovens realizadores.

Juliana apresentou ainda a série “Afronta!”, que estreou 13 novos episódios em março deste ano e revela artistas e pensadores negros contemporâneos, como  Karol Conká, Liniker, Rincon Sapiência, Tássia Reis, entre outros. A partir de experiências e relatos pessoais, a série discute principalmente representatividade e pertencimento, empreendedorismo, ancestralidade e afrofuturismo.

Desde seu lançamento, “Afronta!” cresceu e se tornou um projeto maior, que conta com “Afronta! Internacional”, “Afronta! Latino”, “Afronta! Business”, e “Afrontinha!”, com crianças, tudo atrelado a plataforma TV Preta. “Também estamos pensando em formação. Não tem como pensar em produzir conteúdo preto no Brasil nesse momento sem atrelar isso à formação. Ainda tem um caminho a ser traçado”, concluiu.

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